terça-feira, 7 de março de 2023

Chamando à existência.

 



Por Vitalina de Assis

 

                           

                   A Calopsita e eu.

 



A primeira vez que tive contato com a palavra Calopsita, foi através de uma faixa em uma das ruas do meu bairro que dizia: “Procura-se duas Calopsitas que fugiram no sábado, dia 20/01. São dóceis e pertencem a uma criança autista que está desconsolada. Paga-se muito bem por elas”. Pensei na criança autista, me solidarizei com a angústia do responsável, mas me perguntei: que diabo é isto? Será uma raça de cachorro? Gato? Não tinha a menor ideia, mas curiosa como sou fui ao Google e qual não foi a minha surpresa com aquela avezinha toda fofa, inteligente e tão apegada aos seus humanos. Mesmo fofinha, sequer cogitei a possibilidade de possuir uma. Meu mundo era 100% cães, meu pet lindo, parceiro, inteligente e protetor chamava-se Spike. Pense em um “maltês ilhasa” (pai maltês, mãe ilhasa) que só faltava falar, multiplique por 100 e pode ser que se aproxime do meu Spike que eu, carinhosamente apelidava de hilander, pois parecia eterno. Os cachorros vizinhos morriam depois de alguns anos, mas o Spike continuava firme e forte. Minha filha Thamyrez conjecturava: Será que aconteceu algo sobrenatural quando o Spike foi criado?

- Como assim? Questionava eu.

- Alguém lá encima esqueceu-se de acrescentar a morte ao seu DNA e ele não vai morrer, vai enterrar todos aqui. 

Seria isto possível? E ríamos. Ele se foi aos 20 anos, já não andava mais, usava fralda, tinha sessões semanais de acupuntura, tomava remédio controlado e continuava a se alimentar com muito apetite e apesar de muitos conselhos de leigos para sacrificá-lo, isto não passava pela minha cabeça. Acredito na vida e que os nossos dias de existência são contados e os vivemos na íntegra. Não possuímos o poder de acrescentar um dia a mais, pois o poder da vida e da morte a Deus pertence. Você pode argumentar que possuem a escolha de uma morte voluntária através de um suicídio, mas será que as pessoas que assim o fazem estão exercendo sua autonomia, seu livre arbítrio? Acredito que este ato desconstrói toda a beleza e harmonia do viver e vai na contramão de tudo que o Criador preparou para cada um de nós.   O Spike se foi deixando  um vazio enorme em seu lugar, mas definitivamente não estava em meus planos adotar outro vidinha.  Em plena pandemia e afastamento social era na bendita vacina que eu pensava e no retorno ao trabalho.

Você deve estar pensando com os seus botões: que história é esta que esta mulher está a contar? Começou com a Calopsita, depois entrou um cachorro lindo e inteligente que envelheceu e morreu em plena pandemia. Imagino que ela tenha sido vacinada e pelo andar da carruagem deve ter regressado ao trabalho e como cantou o poeta: “tudo está no seu lugar, graças a Deus”. Perdi algo mais? Ah sim! E a calopsita? O que sucedeu?

As calopsitas da faixa não faço ideia, mas minha irmã ganhou uma e encantada com o bichinho  tentou convencer-me a adotar uma, porém ela não teve êxito, não por hora. Devo confessar que por curiosidade pesquisei preço e me agradou a ideia de possuir uma, mas como se diz por aqui eu esperei esta ideia passar e a vontade seguiu junto. Quando desejamos algo e desejar é uma ação e um sentimento vibratório e, independentemente de ser positivo ou negativo sempre retornam ao seu ponto de origem, ou seja, nós mesmos. Então se os seus pensamentos são positivos, que ótimo! Caso sejam negativos, sombrios e, você não consegue entender porque coisas ruins te sobrevêm o tempo todo, então está mais do que na hora de rever, abortar e substituir cada um deles. Quando me foi apresentada a ideia de ter uma calopsita aceitei inconscientemente, assistia aos vídeos que me eram enviados, percebi que minha vizinha possuía um casal fértil e bastante barulhentos. Quando um desejo ou uma ideia encontra espaço em nossa mente subconsciente, este solo fértil de criação, é certo que colheremos no nosso mundo físico.

Meu cachorro Spike morreu em fevereiro e todos sabem como é dolorosa a perda de um pet que é parte de nossa família. Vivi meu período de luto confortada por um sentimento de extrema gratidão por ter convivido com um ser tão especial e, exatos oito meses após sua morte, em uma bela manhã sem sol aconteceu o inesperado. Uma calopsita emaranhou-se em um dos arbustos do jardim principal no local onde trabalho e deu uma trabalheira doida para o meu colega Hebert que a resgatou. Seus dedos que o digam. Colocou-a em uma pequena caixa de papelão e abriu alguns furos para que ela pudesse respirar com mais facilidade. Quando eu soube do ocorrido pensei imediatamente: esta calopsita veio para mim, eu a co-criei com a minha mente subconsciente. Como o universo nos trás aquilo que cocriamos é com ele, a nós cabe receber e agradecer com alegria. 

Todas as pessoas em volta ficaram entusiasmadas e se dispuseram para adotá-la, ofereceram dinheiro, e ele afirmando que quem pagasse mais a levaria. E eu, na contramão de todos sabia perfeitamente que não se tratava de uma mera coincidência – aquele lindo pássaro estava ali por mim e para mim. Ao afirmar-lhe isto, Hebert olhou-me nos olhos e disse-me: O universo a trouxe para todos nós e quem pagar mais, vai leva-la. Ok, disse-lhe eu. Fui para a minha mesa e declarei: universo, esta ave veio ao meu encontro, é minha e não preciso pagar por ela. Horas depois, no final do expediente ele se aproximou entregou-me a calopsita e pasmem, disse-me que assim que a viu soube no seu coração que a daria para mim.

O que podemos compreender de tudo isto? Que somos seres capacitados e responsáveis por criar o nosso próprio entorno. Se o que vivenciamos no nosso dia a dia não nos agrada, não há a quem culpar. Esta história de que nossa vida poderia ser melhor se A ou B fosse assim ou assado, se tivéssemos nascido neste ou naquele país, se fossemos dotados deste ou daquele dom, se tivéssemos tido as mesmas oportunidades dos filhos de um rico empresário nossa vida seria maravilhosa, perfeita, excepcional. É assim que as coisas funcionam? O mundo não seria justo se tudo isto fosse o fator determinante. Quando formos capazes de compreender a vasta sabedoria que habita em nosso interior e que a mesma, responde aos nossos pensamentos vibracionais tornando-os realidade em nossas vidas saberemos escolher e dar lugar aos que são positivos, bem como rejeitar os que podem ocasionar o mal em nossas vidas.

Experimente chamar à existência coisas simples. Pense na simplicidade como uma escada à sua frente e, na medida em que avanças, maiores serão suas conquistas. Bora Tentar?

 




quarta-feira, 1 de março de 2023

Dialogando com Pessoa

 

Dialogando com Pessoa

Por Vitalina de Assis

 

Mar Português – Fernando Pessoa

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

 


Deparei-me com este poema, para ser mais exata com o questionamento poético: “Valeu a pena? Tudo vale a pena se a alma não é pequena”. Com certeza já ouvistes esta frase centenas de vezes e talvez, a tenhas pronunciado outras tantas: “tudo vale a pena se a alma não é pequena”, entretanto, em que determinado contexto nos surge esta observação? Aí precisamos voltar ao início do poema e mergulhar em seus versos. O poeta inicia com um tributo ao mar, não à sua beleza ou grandeza, não às suas ondas e ao vento que as embala em um suave mover de ir e vir ou gigantes, para por fim em tudo ao redor.  Ele ressalta o sabor de suas salgadas águas. Quantos provaram desta água em seu primeiro contato para simplesmente constatar: “é salgada de verdade”, no entanto nem de perto passa pela percepção sensorial de que são águas salgadas por serem lacrimais, não é mesmo?

Aqui o poeta nos revela o motivo da invocação: ”Ó mar salgado, quanto do teu sal são lágrimas de Portugal! Por te cruzarmos, quantas mães choraram, quantos filhos em vão rezaram, quantas noivas ficaram por casar, para que fosses nosso, ó mar! Valeu a pena”?

Tudo e todas as coisas possuem um preço, mas nem todo preço é monetário e seria injusto, se assim o fosse. “Valeu a pena”?  Questiona o poeta e, em seguida responde: “Tudo vale a pena se a alma não é pequena”.  Então para valer a pena viver e ser agraciado por alguma coisa, a alma tem que ser grande. Pode-se compreender qual seja a largura, e o comprimento e a sua altura, e profundidade de uma alma?

“Quem quer passar além do Bojador tem que passar além da dor”. Quando lemos Bojador e dor no mesmo contexto, pode-se à primeira vista soar apenas como uma boa rima, mas não é.

O “Bojador” indicado no poema era uma região muito perigosa no mar do Atlântico, criando mitos e lendas sobre o local. Fernando Pessoa remete ao fato histórico da travessia que causava temor aos marinheiros, pois nas primeiras décadas do século XV, segundo a tradição grega, o Bojador era uma barreira que separava os navegantes de um perigo mortal, ser atacados por monstros marinhos. O desaparecimento de muitas embarcações que anteriormente tinham tentado contornar levou-os à confirmação deste mito e assim, o Bojador tornou-se intransponível. Era conhecido como Cabo do Medo, recifes de arestas pontiagudas fervilhava aquela região o que tornava a navegação muito arriscada. Somam-se a isto largos quilômetros da costa em alto mar com a profundidade de pouco mais de dois metros, tempestades, mar agitado e a grande frequência de violentos ventos eram e continuam sendo ainda hoje uma zona que impõe respeito aos navegantes.

“Quem que passar além do Bojador tem que passar além da dor” e aqui, o “eu lírico” fala comigo, com você, fala com todos nós. Passar além do Bojador é tudo aquilo que pode nos tirar da nossa zona de conforto, da mesmice de cada dia, do olhar e percepção que nunca se reinventa. Qualquer movimento contrário nos assusta, nos paralisa, machuca todas as peles que nos revestem, mas é a grande âncora sendo içada do fundo do oceano. Permita-se ser içado, desfrute das benesses que se aproximam.

 “Deus ao mar o perigo e o abismo deu, mas nele é que espelhou o céu”.

Você tem encontrado muitas dificuldades no seu cotidiano? A vida tem te apresentado desafios que por hora te parecem insuperáveis? Ou quem sabe é apenas um desconforto e você se questiona: Por que é que eu tenho que passar por este stress? Não seria melhor dizer: Próximo! Cansei-me! Não. Não seria. A vida nos apresenta desafios e, são eles que nos conduzem à nossa plena realização.


                                                                                                     

 


 


 

sexta-feira, 6 de março de 2020

La gratitud es un verbo.



Por Vitalina de Assis.






Tiendo a despertarme a las cuatro de la mañana para meditar, y siempre me levanto antes de que suene el teléfono. Uno de estos amaneceres, tuve un sueño antes del tiempo de meditación y desperté por este hecho. Déjame informarlo:

Iba a viajar y me acompañaban dos personas que no recuerdo quiénes eran. Íbamos en autobús y mientras esperábamos, fui al baño y cuando volví a abordar decidí contactar a la gente y fue allí, que extrañé mi teléfono celular y me di cuenta de que había olvidado mi bolso en alguna parte. Me golpeó la desesperación, no sabía exactamente dónde mirar y tendría que hacerlo muy rápido, porque el autobús ya se estaba deteniendo. Cuando me mudé para volver al baño, pensé en esperar amigos, miré a la multitud que estaba abarrotada y entendí que no los vería y decidí buscar rápidamente, en esto me desperté con todos los detalles en mente y naturalmente no estaba de acuerdo con el sueño diciendo: I No soy una mujer perdida, no pierdo mi teléfono celular, y mucho menos mi bolso. Cogí mi teléfono celular y fui a meditar. Luego me levanté, me vestí y salí a trabajar. Me senté en los tres autobuses, gratitud, gratitud, gratitud. En el centro, compré panes para desayunar, pan de queso y una rebanada de pastel. Cuando bajé del tercer autobús, me di cuenta de que había olvidado la bolsa con mi café. Confieso que estaba enojado, tenía hambre, había comprado más de lo que debería y estaba muy frustrada. Me quejé y solo después de un tiempo le agradecí, porque seguramente alguien se alimentaría de mi olvido. Como a veces es difícil expresar gratitud al principio, ¿no creemos que sí?

Entonces recordé el sueño y consideré la razón de mi falta de atención. Imaginé que alguien necesitaba esto como prueba del afecto y el cuidado de Dios por ella. Esto alegra mi corazón. Reafirmé que no debo perder, sino donar, dar, bendecir.

Reflexioné sobre una frase que generalmente digo: "Dios tiene más para dar que el demonio para tomar" e inmediatamente no estuve de acuerdo con esta frase, porque el demonio no toma nada de mi vida, ni de nadie más. Somos totalmente responsables de todo lo que se nos ocurre, incluso cuando estamos o nos sentimos perjudicados. Soy el capitán de mi destino y estoy alerta para no trabajar en mi contra. Estoy agradecida de que, incluso de manera involuntaria, le di de comer a alguien para el desayuno y más que solo alimentarlo, bendije a esa persona. Siempre somos bendiciones, lo sepamos o no, y se practica la gratitud.

Eterna gratitud.

terça-feira, 3 de março de 2020

Gratidão é verbo.



Gratidão é verbo


Por Vitalina de Assis.








Tenho por hábito  acordar às quatro da manhã para meditar, e sempre acordo antes do celular tocar. Uma madrugada destas, tive um sonho antes do horário da meditação e acordei por este fato. Passo a relatá-lo:

Eu ia viajar e estava acompanhada de duas pessoas que não me recordo quem eram. Íamos de ônibus e enquanto esperávamos, fui ao banheiro e ao retornar para o embarque decidi contatar com as pessoas e foi aí, que dei falta do meu celular e percebi que havia esquecido minha bolsa em algum lugar. Bateu-me um desespero, não sabia exatamente onde procurar e teria que fazer isto muito ligeiro, pois o ônibus já estava encostando. Quando movi para retornar ao banheiro, pensei em esperar pelos amigos, olhei para a multidão que estava aglomerando e entendi que não iria vê-los e resolvi procurar rapidamente, nisto eu acordei com todos os detalhes em mente e naturalmente discordei do sonho dizendo: Eu não sou mulher de perdas, não perco meu celular e muito menos a minha bolsa. Pequei meu celular e fui meditar. Após, levantei, me arrumei e saí para o trabalho. Fui sentada nos três ônibus, agradeci, agradeci, agradeci. No centro, comprei pães para o café, pão de queijo e uma fatia de bolo. Quando desci do terceiro ônibus, percebi que havia esquecido a sacola com o meu café. Confesso que fiquei irritada, estava com fome, tinha comprado mais do que deveria e me senti muito frustrada. Reclamei e só depois de um tempo agradeci, pois certamente alguém seria alimentado com o meu esquecimento. Como às vezes é difícil expressarmos gratidão no primeiro momento, não nos parece assim?

Então me lembrei do sonho e fiquei a considerar o motivo da minha desatenção. Imaginei que alguém precisasse disto como prova do carinho de Deus e cuidado para com ela. Isto alegrou meu coração. Reafirmei que não sou de perder, mas de doar, dar, abençoar.

Refleti sobre uma frase que costumo dizer: "mais tem Deus para dar, do que o diabo para levar" e imediatamente discordei desta frase, pois o diabo não leva nada da minha vida, ou de quem quer que seja. Somos totalmente responsáveis por tudo o que nos ocorre, até mesmo quando somos ou nos sentimos prejudicados. Sou a capitã do meu destino e estou alerta para não trabalhar contra mim. Sou grata porque, mesmo de uma maneira involuntária alimentei alguém no café da manhã e mais do que alimentar, abençoei esta pessoa. Somos sempre bênçãos, estejamos conscientes disto, ou não e gratidão se pratica.

Gratidão eterna.





segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Sabonete e água quente.




Por Vitalina de Assis.







A angústia é um ser intrigante! Quando penso que nos despedimos, efetivamente me surpreende em um abraço tão intenso, que chego a pensar ser amor o que gentilmente me oferece.

Acordei com a ligeira impressão de que este dia, nada poderia oferecer que me entristecesse de alguma forma. Uma destas esplêndidas manhãs em que o nosso primeiro pensamento é de gratidão, e não importa se faz sol ou chuva.  Obrigada! Estou viva! Despertei! Despertamos incrivelmente mais leves, flutuamos como o vapor que nos aquece em um banho que promete lavar o corpo e deixar escorrer pela pele todo vestígio de sonolência, toda preguiça que ainda insiste. Nos desperta a impressão de que sabonete e água quente serão capazes de passar a limpo todos os sonhos, desfazendo pesadelos, energizando vontades e desejos. É assim que nos revigora o banho matinal? Possuem tais poderes, a água que escorre do chuveiro?
                                                                                                                                    
Pessoas mais sensatas afirmariam que tal banho,  em dimensões reais, não existe. A água e a espuma que limpam o corpo não penetram na epiderme, não viajam até as entranhas do ser lavando alma e sentimentos, não concedem ao interior a essência aromática, não vaporizam deixando úmidas as paredes ressequidas. Sequer possibilitam aos espelhos do sentir uma névoa, em que se possam escrever impressões aleatórias, imprimir desejos, forjar uma promessa.

Pessoas mais sensíveis viajam feito bolhas de sabão que se sentem livres para voar. Leves e flutuantes  possuem  o "céu"  como limite, entretanto, de repente pluft, explodem e segundos depois, quem ainda se lembram delas?  Não percebe sua existência efêmera, sua fragilidade pulsante, seu voo sem sentido para um pluft... Nada a imprimir em azulejos, espelho, vidros de perfume. Sequer tocam o chão. Não nos sentimos da mesma forma em 'dias especiais'? Leves,  flutuantes, intocáveis em um voo sem limites? Então a realidade nos toca e compreendemos nossa efemeridade. Somos felizes na nossa essência? Acreditamos em água morna e sabonete?

Banhada e sem consciência de que tudo isto ocorre em um simples banho, visto roupas previamente escolhidas, embora não tenha escolhido com igual zelo, os sentimentos a cobrir outros desnudos. Saio semivestida sem a percepção  de que, a nudez exposta compromete a sanidade emocional que requer manhã e dia. Sentimentos descobertos são convites irrecusáveis para que se cubra, a todo custo, tamanha exposição. Então minha leveza bolha de sabão, desnuda e vulnerável sente achegar-se sorrateiramente um véu, posando-lhe sobre os ombros como se fosse amigo (entretanto, sem aquela sensação de bem estar, segurança e afeto desconfia de suas intenções) aconchegando-se, sussurrando-lhe pensamentos imprecisos em uma sucessão lógica. "Sente-se tão eufórica e toda esta euforia, roubou-lhe o tempo de vestir-se adequadamente"? "Não se coloca a descoberto  sentimentos infantes". "Podes afirmar que o que sentes, é suficientemente seguro de si?"

O tempo frio e úmido bem  queria tocar-me, no entanto minhas vestes só permite-lhe passar ao largo, sem sequer encostar-se à minha pele e apesar do desejo de eriçar meus pelos, afasta-se.  Inadequadamente vestida? Não! Mas como explicar a transitoriedade da minha alegria? Esta impressão tátil e o toque da aspereza sobre mim,  fora suficiente para alterar meu estado de espírito. Sinto-me escorregar pelo véu que dos meus ombros salta, estendendo-se sob meus pés. Escorrego por uma tristeza líquida, aquecida, um, "me tens em seus braços" e apesar do desconforto, não ouso erguer-me. Deixe-me aqui, deixe-me aqui.

À minha volta percebo um esforço redobrado do cotidianamente diferenciado chamando-me para observar o inusitado. Dezenas de graciosas garças enfileiradas, altivas, imóveis mirando o céu  viravam-se lentamente em minha direção sugerindo-me um cumprimento cordial e amoroso. Algumas retornavam de um voo calmo e outras abriam as asas para voar. Ao lado, um bando de biguás mergulhava simultaneamente em busca de alimento e seguiam mergulhando, alimentando-se. Busquei em vão  na minha memória manhã semelhante, pareceu-me um espetáculo inédito e verdadeiramente o era.

A vida pulsante em uma ordem tão precisa encantava meus olhos e sentimentos, lentamente senti erguer-me. Se o que está ao seu redor se esforça sobrenaturalmente para chamar sua atenção, atente! Sustentável é permitir que seus olhos se  fartem da beleza, ao invés de  ficar  despertando dores que repousam. Tudo há seu tempo se acomoda, tranquiliza. 

Parecia-me  tolice imaginar que tamanho espetáculo, estivesse sendo orquestrado com o único propósito de fazer-me emergir da líquida tristeza aquecida, afinal, quantas vezes nos sentimos indignos de um olhar amigo, de um amor sincero, de um mover divino? Sem que me desse conta, meu estado de espírito agora diferente de minutos atrás, tornara-se o alvo de uma ministração de doses de otimismo e inexplicavelmente, fazia-se nítida a impressão do banho - desliza sobre a pele sabonete e água quente. Um sob a regência do ir e vir, o outro, enquanto permite a torneira aberta, enquanto a mão não solta o sabonete e interrompe o prazer do banho, sentimentos descobertos, cubro. 

 A angústia, como tudo mais possui seus segredos, seus sabores, suas faces, seu jeito próprio, por vezes, torto, assertivo, insistente! A pitada a gosto.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

Natal, tempo oportuno?





Por Vitalina de Assis. 








S
eria o natal, um momento oportuno apenas para presentear, gastar, encher de pisca-pisca árvores e telhados, reunir familiares e comer... beber... e,  comer de novo? Viveríamos em uma eterna infância se o víssemos apenas com olhares infantis que brilham, ante a possibilidade de se empanturrarem de presentes. Alguns adultos são assim, brilham olhos, brilham ideias, brilha a carteira ao conjugar o verbo gastar sem nenhuma parcimônia.

Outros, ao verem o natal apenas como o “Senhor Comércio” que tenta obrigá-los a prestar adoração a todo custo, cobrem-se com as vestes do ateísmo e recusam-se a ceder a toda e qualquer forma de aliciamento e então, se fecham em copas, fecham as mãos e se escondem entre muros, paredes, dentro de si mesmos.

Felizmente ainda há os que veem no natal a possibilidade, de suavizar linhas de expressão que foram sulcadas ao longo do ano nas relações com parentes, amigos, com o planeta. É impossível vivermos 365 dias no ano e não semearmos um desafeto aqui, ali, acolá, ou não sermos ríspidos e insensíveis, ou injustos em nossos julgamentos. Faz parte também da natureza humana “desagradar” quando na realidade gostaríamos de agradar o tempo todo, entretanto no natal, é possível ceder aos encantamentos que sua “magia” nos proporciona. É possível sermos agraciados com o dom mais sublime ao qual temos acesso. 

Podemos perdoar transitando pelos sulcos que estas linhas de expressão delinearam e atenuá-las, quem sabe até eliminá-las. Outrora me perguntava se seria isto possível de fato, pois algumas marcas insistem em ficar como se a ferro e fogo tivessem sido cravadas. No presente, percebo o real valor do perdão e que ele se constrói no dia a dia, no passo a passo, no sossegar em Deus. Retenha o que você aprendeu e o que te fez crescer, tenha a humildade de perceber seus erros e tente corrigi-los, pois esta é a grande diferença.

Sábio é quem aproveita e percebe que a atmosfera natalina é muito mais que presentear, é o Cristo nascendo em nossos corações, é Deus na terra e paz, para os homens de boa vontade.  Natal é tempo oportuno para zerar as diferenças, refazer um caminho “viciado”, “recorrente” e seguir por outra bifurcação, abrir novas estradas, ou quem sabe pequenas trilhas norteadoras. O segredo é deixar-se encantar, ceder à magia.

E o que dizer dos orgulhosos empedernidos, que não se abrem para oferecer e receber perdão?  E quanto aos muitos, que não cedem a um abraço amigo e sequer aceitam recomeçar de novo? Nada a fazer senão esquecer o medo de ser feliz e apostar que ainda que o outro, não ceda ao seu abraço, à magia do natal, ao presente "dar-se", o que realmente importa é que o primeiro passo foi dado, e cabe ao espírito natalino, à magia a qual me referi acima, selar o acordo.

Pessoalmente, natal na minha infância sempre foi mágico pelos presentes, pela expectativa que durava o ano inteiro e acho até que eu acreditava na figura do bom velhinho, entretanto, em um belo dia cresci e soube que o “Natal” está além, muito além dos presentes terrenos, destes que o nosso dinheiro pode comprar ou doar.


terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Escolhas.



Escolhas.

Por Vitalina de Assis.






O
que fazer quando esperamos um ‘mundo’ dos amigos, família ou da vida e “nada” recebemos? (Sejamos sinceros, nada? Nada mesmo?) Muitas de nossas ações positivas não são premiadas por um longo período de tempo, e talvez isto ocorra para que se crie um espaço para exercermos nossa fé, gratidão e controlarmos  a ansiedade, pois ela rasga a nossa paz se assim permitimos.  Este espaço, que muitas vezes nos parece angustiante, são “criadouros” de expectativas desafiadoras, testes de fé a nos confrontar.

Desejamos um rápido retorno de nossos investimentos espirituais, mas quando nos parecem demorados, a dúvida se faz presente e então nos sentimos desapontados, sem esperança e meio perdidos. Temos duas escolhas: podemos permitir que o desapontamento nos mantenha cativos em caminhos duvidosos, ou nos elevamos acima destas nuvens de melancolia e desamparo, encontrando assim, a nossa boa recompensa. Tenho ciência de que isto pode ser uma tarefa demasiadamente difícil, mas a expectativa é uma adversária formidável quando sabemos lidar com ela,  além do que, se você souber ser um bom pensador, e por bom pensador entenda - é aquele que sabe que os pensamentos são  sementes e se esmera por escolher as melhores. Boas sementes geram árvores frondosas e produtivas. 

O segredo para a satisfação é simplesmente afastar nossa concentração dos resultados que almejamos, pois o fato de esperá-los não é o aval para roermos todas as unhas. Resista aos impulsos reativos que são respostas automatizadas diante de determinada situação, e assim, você estará  exercendo seu  sagrado direito ao livre arbítrio, ou seja, escolhendo racionalmente conduzir e não apenas ser conduzido pelas circunstâncias. Se formos gratos ao que temos e por quem somos, as expectativas falsas e egoístas serão eliminadas. 

Compreendo que passamos por infinitas etapas em nossas vidas e todas elas, não são aleatórias, fruto do acaso, um descuido da sabedoria como poderia ser-nos sugerido no primeiro momento. Não adianta responsabilizarmos os céus, as pessoas, o destino, ou ainda os conflitantes sentimentos que nos assaltam diariamente. Lançar a culpa sobre isto ou aquilo, este ou aquele, situações ou pessoas e acusa-los por nosso lamentável estado mental, não melhora em nada. Nós, exatamente cada de um de nós, somos responsáveis pelos nossos próprios sentimentos e não adianta brincarmos de Adão e Eva no paraíso transferindo responsabilidades que são nossas. Devemos tomar conta dos nossos pensamentos e ações, conscientes de que nada e ninguém estão sob o nosso controle. A mente de outra pessoa pode não fazer o que queremos e provavelmente não o fará. Só temos controle sobre a nossa própria mente. 




quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Eu prometo.



Eu prometo.

Por  Vitalina de Assis.



 "Promessa é o compromisso de se fazer alguma coisa. Aquele que    promete algo quer dizer que está comprometido com aquilo".                             



Escrevi o texto abaixo em Janeiro de 2019 e releio hoje, dia 18/11/2019, exatamente dez  meses depois.  No dia 16/08/2019, sofri um AVC Hemorrágico e regressando ao trabalho, após meu período de licença médica, me deparo com as promessas que fiz a mim mesma, um "manifesto", como diria um grande amigo do passado. Depois de tudo que passei e do milagre que é receber minha vida de volta sem nenhuma sequela, só posso fazer valer cada promessa feita.

Eu prometo não supervalorizar pessoa, coisa ou lugar. Prometo não supervalorizar um estado “relacionamento”, pois ninguém pode me proporcionar o que meu Deus pode me dar.

Eu prometo valorizar Deus e minha relação com Ele e não estou me referindo a ser membro desta ou daquela denominação, pois Deus não se prende entre quatro paredes. Estou revendo meus conceitos e o louvor, que me muito cantei, me toca profundamente:

          “Quero voltar ao início de tudo
          Encontrar-me contigo Senhor
          Quero rever meus conceitos, valores
          Eu quero reconstruir
          Vou regressar ao caminho
          Vou ver as primeiras obras Senhor

          Eu me arrependo Senhor
          Me arrependo Senhor
          Me arrependo Senhor

          Eu quero voltar
          Ao primeiro amor
          Ao primeiro amor
          Eu quero voltar
          A Deus"

Eu prometo valorizar o Deus que habita em mim, que está e sempre esteve comigo em todos os momentos da minha vida e que me proporciona mais, muito mais do que qualquer outro ser, ou situação.

Eu prometo ser grata por tudo. Obrigada, muito obrigada, gratidão pelo meu estado solteira, pelo amor que posso nutrir e compartilhar comigo. Sou grata por minha vida e por exercer esta compaixão, companheirismo, cumplicidade, tolerância, amizade e amor por mim mesma.

Ao amanhecer e ao ver-me no espelho agradecerei pela minha vida, serei grata a Ti em  primeiro lugar. Abdico da responsabilidade de idealizar, ou criar situações para trazer o "outro" até mim. Minha vida não está atrelada a ninguém, e reconheço minha total dependência  do Senhor, meu Pai  Eterno. 

Eu prometo amar o Senhor, ser fiel a Ti meu marido universal porque ninguém mais é capaz de amar-me e cuidar-me com tanta intensidade.

Fui a lugares incríveis, lindos e vivi momentos inigualáveis porque o Senhor, me conduziu a eles e foram ricos, generosos, felizes, extraordinários. Só o Senhor Deus para me proporcionar tudo isto. Aranjuez foi o exemplo deste conhecer, levou-me onde minha alma se encontrou feliz e plena. Salamanca, encontro divino, sem medo e extremamente feliz. Ainda tenho comigo a alegria - "confia e vivencia". 

E quando minha alma e meu corpo, se encontravam no limite entre a vida e a morte, Tu me disseste: - Viva Vita! E ainda que a palavra do neurologista, dita à minha filha Talita fosse: - vamos tentar tirar a sua mãe do óbito - sua alternativa Deus, nunca foi a incerteza - me arrancastes da mão da morte sem sequer arrazoar com ela. Sua soberania e poder, não são moedas de troca e isto ficou muito claro aos meus sentidos. Claro também ficou a certeza de que minha vida tem um propósito e, que vou realizá-lo com a sua graça.


Gratidão do fundo do meu coração. Deus é Amor sem limites.







quarta-feira, 17 de abril de 2019

Enxergando a Páscoa com um olhar diferenciado.



Por Vitalina de Assis.


A Páscoa nunca deixará de trazer à nossa memória o maior e mais importante evento do Cristianismo: a morte e ressurreição do Senhor Jesus Cristo, e de quão gratos devemos ser por tamanho sacrifício, entretanto, quero caminhar por outra faceta da mesma e dialogar com você. A Páscoa foi instituída quando Israel era escravo na terra do Egito e, quando as medidas desta escravidão já não comportavam mais uma nação, clamaram por liberdade.


Tudo na vida possui uma medida e é no transbordar destas medidas, sejam elas aparentemente saudáveis, ou aparentemente enfermas é que visualizamos a possibilidade do êxodo. Deixar uma vida de escravidão para trás e se lançar para uma vida de liberdade não é fácil, tampouco confortável. Os pensamentos e atos, supostamente livres, não sabem exercer a autonomia, não foram treinados para isto e se não formos ligeiros, atar-se-ão novamente ao antigo feitor. Ciente deste comportamento nocivo à liberdade, os israelitas receberam de Deus uma orientação a ser seguida à risca, pois disto resultaria o sucesso do êxodo.


“Desta maneira o comereis: lombos cingidos, sandálias nos pés e cajado na mão; comê-lo-eis à pressa; é a Páscoa do Senhor.” (Êx.12:11)


Não entrarei em maiores detalhes, basta dizer que deveriam se alimentar de um cordeiro sem mácula por família e que não deveriam fazê-lo em festa, em uma mesa bem posta e com tempo aprazível para degustar tal banquete. Deveriam comê-lo já preparados para “bater em retirada”, vestidos apropriadamente, sandálias em “punho”, cajado (instrumento indispensável para a grande travessia) e à “pressa”.


Ôpa! Não é a pressa a inimiga da perfeição? É o que dizem e é no que  a maioria acredita e alguns seguem pela vida entoando o mantra: “Ando devagar porque já tive pressa”, veem seus dias arrastando-se lentamente e quando se dão conta.... sobra-se então vacilo, desistência, comodismo, inaptidão para romper e uma vida à margem da plenitude.


Aquela nação escrava não poderia correr o risco de ser seduzida pela escravidão e abrir mão da liberdade, que a Páscoa acenava-lhes. Quantas “páscoas” ainda teremos que vivenciar para enfim, sairmos do cativeiro? “Comê-lo-eis à pressa, é a Páscoa do Senhor”.


Suas medidas estão transbordantes? Ser refém desta situação já é quase impraticável? Alie-se à “pressa” e perceba que os seus dias, estão repletos de oportunidades e muitas delas significam deixar velhos hábitos que nos escravizam, abrir mão de zonas de conforto que estão mais para momentos de guerra civil, e optar pelo pleno exercício de nossa autonomia -  o caminho para uma vida de liberdade.


Por vezes precisamos nos libertar de alguns pensamentos nocivos, opressores, que nos mantêm cativos em lugares incomuns, sem a menor possibilidade de ascensão e progresso. Páscoa também é isto -  o momento ideal para fugir rapidamente de situações que nos oprimem.


segunda-feira, 25 de março de 2019

Completude.




Por Vitalina de Assis.






Não me recordo quando foi a última vez que postei por aqui, e isto é uma verdade relativa, pois basta olhar a data da última postagem  para situar-me. Deixemos isto em outro plano, pois não é a ausência de publicação algo relevante, a relevância está em ter ou não algo para dizer. Outra relevância pontua-se: quem neste mundo, não teria algo a dizer? É mais relevante pensar que, talvez não se encontre quem queira ouvir ou se importar, e isto também se torna irrelevante, já que possuo dois ouvidos, dois bons vizinhos para uma única boca.

Você pode estar incomodado com a minha redundância e insistência na arte de relevar, mas deixe-me adjetivar em paz e desista de contar quantas vezes fiz uso desta palavra, porque isto também não tem relevância alguma. O que me move são momentos, pouco a ver com “inspiração”, porém, muito a ver comigo. A escrita me constrói e desconstrói na medida em que permito e hoje, dou-me a este desfrute. Nada me revela mais do que as letras que desenho livremente em um fluxo quase ininterrupto, João Cabral de Melo Neto disse: “Escrever é estar no extremo de si mesmo,” e de fato o é. Então, de muito pensar nesta ausência criativa por aqui, embora por cá, fora deste limite que se impõe,  meu ser borbulha de ideias e questionamentos internos, não que eu possua dúvidas quanto ao que vai em minha alma, no entanto permito que  as do entorno, se apresentem. Sou todas as respostas de que necessito. Basto-me eu em meu ser, supro-me eu em meu ser. Sinto-me implodir em mim, sem desconstruções, poeiras e entulhos naturais de uma implosão. Sou construção, sou descoberta, estou inteira.  Estou perplexa! Incompletude sempre foi a minha essência, então o que eu fiz com ela afinal? Onde abandonei a incompletude? Como não percebi tê-la largado em algum lugar? Quando me completei?

Um dia destes e deste momento não tenho a mais insignificante lembrança, larguei, joguei, perdi, fui roubada, sei lá - um pacote ofício pardo contendo  relatórios e um artigo em PDF - Os 72 Nomes de Deus - uma tradução que fiz do espanhol  que evaporaram-se, de minhas mãos e de minhas lembranças. Não fosse o caso, de um documento específico estar no meio e ser requisitado em um tempo posterior, minha memória talvez jamais se lembrasse de tal pacote. Fui abduzida neste dia. Juro, de nada me lembro do após - tomando-o em minhas mãos e seguir para casa.

Quão grato seríamos se alguns eventos de nossa existência, fossem evaporados assim. Consegues enumerá-los para abdução?  Fato é que fiquei preocupadíssima com minha responsabilidade, pois só poderia caber à sua ausência o meu ato de perder, esquecer e sequer lembrar-me, porém tudo passa e nada permanece imutável nesta nossa existência efêmera. Depois de tantos: “não sei o que aconteceu e nem tudo, se pode resgatar”, descansei, melhor, aceitei o que eu não poderia mudar de jeito algum. Aceitar parece um verbo descontextualizado em nosso viver, mas é perfeito para se conjugar e quando compreendemos isto, a leveza reside na porta ao lado e a culpa, sabe-se lá por onde anda. 

Aceitação não é sinônimo de acomodação, mesmo porque nossa natureza respirante tende a relutar ao novo, a ser resistência para o que se achega. Do conforto, haveremos de desconfortar em algum episódio de nossa existência e isto é tão mágico quanto surpreendente. Pense nisto. Aceitação é crescer dando-se conta desta expansão, que não é, e nunca será apenas corpórea, no entanto, muitas vezes sutil passa ao largo até que as medidas extrapolam e nos descobrimos à deriva de nós mesmos, à espera de um resgate, ou plenamente integrados à nossa essência de luz.

Tudo está em crescimento desde o dia em que nos aventuramos naquela corrida insana e quem sabe desleal, com os nossos pares para nos acomodarmos no útero de nossa mãe e de lá para cá, é imperativo crescer.