quarta-feira, 17 de abril de 2019

Enxergando a Páscoa com um olhar diferenciado.



Por Vitalina de Assis.


A Páscoa nunca deixará de trazer à nossa memória o maior e mais importante evento do Cristianismo: a morte e ressurreição do Senhor Jesus Cristo, e de quão gratos devemos ser por tamanho sacrifício, entretanto, quero caminhar por outra faceta da mesma e dialogar com você. A Páscoa foi instituída quando Israel era escravo na terra do Egito e, quando as medidas desta escravidão já não comportavam mais uma nação, clamaram por liberdade.


Tudo na vida possui uma medida e é no transbordar destas medidas, sejam elas aparentemente saudáveis, ou aparentemente enfermas é que visualizamos a possibilidade do êxodo. Deixar uma vida de escravidão para trás e se lançar para uma vida de liberdade não é fácil, tampouco confortável. Os pensamentos e atos, supostamente livres, não sabem exercer a autonomia, não foram treinados para isto e se não formos ligeiros, atar-se-ão novamente ao antigo feitor. Ciente deste comportamento nocivo à liberdade, os israelitas receberam de Deus uma orientação a ser seguida à risca, pois disto resultaria o sucesso do êxodo.


“Desta maneira o comereis: lombos cingidos, sandálias nos pés e cajado na mão; comê-lo-eis à pressa; é a Páscoa do Senhor.” (Êx.12:11)


Não entrarei em maiores detalhes, basta dizer que deveriam se alimentar de um cordeiro sem mácula por família e que não deveriam fazê-lo em festa, em uma mesa bem posta e com tempo aprazível para degustar tal banquete. Deveriam comê-lo já preparados para “bater em retirada”, vestidos apropriadamente, sandálias em “punho”, cajado (instrumento indispensável para a grande travessia) e à “pressa”.


Ôpa! Não é a pressa a inimiga da perfeição? É o que dizem e é no que  a maioria acredita e alguns seguem pela vida entoando o mantra: “Ando devagar porque já tive pressa”, veem seus dias arrastando-se lentamente e quando se dão conta.... sobra-se então vacilo, desistência, comodismo, inaptidão para romper e uma vida à margem da plenitude.


Aquela nação escrava não poderia correr o risco de ser seduzida pela escravidão e abrir mão da liberdade, que a Páscoa acenava-lhes. Quantas “páscoas” ainda teremos que vivenciar para enfim, sairmos do cativeiro? “Comê-lo-eis à pressa, é a Páscoa do Senhor”.


Suas medidas estão transbordantes? Ser refém desta situação já é quase impraticável? Alie-se à “pressa” e perceba que os seus dias, estão repletos de oportunidades e muitas delas significam deixar velhos hábitos que nos escravizam, abrir mão de zonas de conforto que estão mais para momentos de guerra civil, e optar pelo pleno exercício de nossa autonomia -  o caminho para uma vida de liberdade.


Por vezes precisamos nos libertar de alguns pensamentos nocivos, opressores, que nos mantêm cativos em lugares incomuns, sem a menor possibilidade de ascensão e progresso. Páscoa também é isto -  o momento ideal para fugir rapidamente de situações que nos oprimem.


segunda-feira, 25 de março de 2019

Completude.




Por Vitalina de Assis.






Não me recordo quando foi a última vez que postei por aqui, e isto é uma verdade relativa, pois basta olhar a data da última postagem  para situar-me. Deixemos isto em outro plano, pois não é a ausência de publicação algo relevante, a relevância está em ter ou não algo para dizer. Outra relevância pontua-se: quem neste mundo, não teria algo a dizer? É mais relevante pensar que, talvez não se encontre quem queira ouvir ou se importar, e isto também se torna irrelevante, já que possuo dois ouvidos, dois bons vizinhos para uma única boca.

Você pode estar incomodado com a minha redundância e insistência na arte de relevar, mas deixe-me adjetivar em paz e desista de contar quantas vezes fiz uso desta palavra, porque isto também não tem relevância alguma. O que me move são momentos, pouco a ver com “inspiração”, porém, muito a ver comigo. A escrita me constrói e desconstrói na medida em que permito e hoje, dou-me a este desfrute. Nada me revela mais do que as letras que desenho livremente em um fluxo quase ininterrupto, João Cabral de Melo Neto disse: “Escrever é estar no extremo de si mesmo,” e de fato o é. Então, de muito pensar nesta ausência criativa por aqui, embora por cá, fora deste limite que se impõe,  meu ser borbulha de ideias e questionamentos internos, não que eu possua dúvidas quanto ao que vai em minha alma, no entanto permito que  as do entorno, se apresentem. Sou todas as respostas de que necessito. Basto-me eu em meu ser, supro-me eu em meu ser. Sinto-me implodir em mim, sem desconstruções, poeiras e entulhos naturais de uma implosão. Sou construção, sou descoberta, estou inteira.  Estou perplexa! Incompletude sempre foi a minha essência, então o que eu fiz com ela afinal? Onde abandonei a incompletude? Como não percebi tê-la largado em algum lugar? Quando me completei?

Um dia destes e deste momento não tenho a mais insignificante lembrança, larguei, joguei, perdi, fui roubada, sei lá - um pacote ofício pardo contendo  relatórios e um artigo em PDF - Os 72 Nomes de Deus - uma tradução que fiz do espanhol  que evaporaram-se, de minhas mãos e de minhas lembranças. Não fosse o caso, de um documento específico estar no meio e ser requisitado em um tempo posterior, minha memória talvez jamais se lembrasse de tal pacote. Fui abduzida neste dia. Juro, de nada me lembro do após - tomando-o em minhas mãos e seguir para casa.

Quão grato seríamos se alguns eventos de nossa existência, fossem evaporados assim. Consegues enumerá-los para abdução?  Fato é que fiquei preocupadíssima com minha responsabilidade, pois só poderia caber à sua ausência o meu ato de perder, esquecer e sequer lembrar-me, porém tudo passa e nada permanece imutável nesta nossa existência efêmera. Depois de tantos: “não sei o que aconteceu e nem tudo, se pode resgatar”, descansei, melhor, aceitei o que eu não poderia mudar de jeito algum. Aceitar parece um verbo descontextualizado em nosso viver, mas é perfeito para se conjugar e quando compreendemos isto, a leveza reside na porta ao lado e a culpa, sabe-se lá por onde anda. 

Aceitação não é sinônimo de acomodação, mesmo porque nossa natureza respirante tende a relutar ao novo, a ser resistência para o que se achega. Do conforto, haveremos de desconfortar em algum episódio de nossa existência e isto é tão mágico quanto surpreendente. Pense nisto. Aceitação é crescer dando-se conta desta expansão, que não é, e nunca será apenas corpórea, no entanto, muitas vezes sutil passa ao largo até que as medidas extrapolam e nos descobrimos à deriva de nós mesmos, à espera de um resgate, ou plenamente integrados à nossa essência de luz.

Tudo está em crescimento desde o dia em que nos aventuramos naquela corrida insana e quem sabe desleal, com os nossos pares para nos acomodarmos no útero de nossa mãe e de lá para cá, é imperativo crescer. 

                              

terça-feira, 9 de outubro de 2018

Em mim.




Por Vitalina de Assis.




Há muitos anos atrás minha mente era muito compactada, possuía uma “concepção espiritual” e acreditava que aquela forma de crer e de exercer esta crença, era a correta. Meu mundo se resumia na seguinte frase: eu sou de Deus e os outros, que não estão na minha igreja, são do mundo. Existiam aqueles que estavam na mesma igreja participando do culto, mas eram  mundanos, não   haviam passado pelo batismo nas águas, ouviam músicas que não eram evangélicas, frequentavam barzinho, fumavam, bebiam, eram do mundo mesmo.

Eu estava feliz nesta redoma, tudo era muito delimitado, sabia-se exatamente o que fazer ou pensar, “mentezinha” pequena, não? Era jovem demais, pouco mais que uma adolescente em uma época em que a adolescência era apenas sinônimo de “aborrecência”, hoje não mais, com certeza.

Muitos anos depois dei um salto para a faculdade, então as coisas começaram a mudar, comecei a filosofar, menos... questionar seria mais adequado, dúvidas seriam a nova estrada, ruazinha a trilhar.
Ouvi uma professora de Filosofia insistir na palavra caminho. Acendeu uma luzinha, estaria ela insinuando “O caminho, a verdade e a vida”? Estaria falando de Jesus de uma forma que eu desconhecia? Fiquei deveras incomodada, melhor - mexida. E ela não parou de lançar seus dados sobre mim  e o que guardei no meu âmago foi isto: toda verdade não é única, toda verdade é contestável e toda verdade pode ser absoluta, a minha pelo menos, até que..., mas, nenhuma será autêntica, se não for fruto de um empirismo.

Eita!

Empirismo, que belo acréscimo ao meu léxico quase sagrado, senti que eu estava adentrando solo profano e aquilo me atraía sedutoramente. Na verdade, toda forma de conhecimento é um ato profanador, pois fere nosso conforto, confronta nosso conhecimento, abala estruturas nada sólidas e machucam. Não há de desconstruir-se algo que não venha  provocar dores, todo conhecimento carrega sua parcela de desconforto. Dar à luz é um ato de dor profunda ao que concebe e ao que recebe.

O empirismo tinha sua própria magia desafiante e “desconstrutora”. Meus dominós estavam todos enfileirados em uma segura ordem e de repente, senti uma leve oscilação, help! Como é que eu conseguiria mantê-los de pé? Não poderia ainda que me esforçasse, meu desejo sincero era vê-los caírem um a um e o empirismo estava a postos para tudo justificar. Aprendi com o filósofo John Locke que a minha mente estava  mais   para “uma folha em branco, tabula rasa” apta para ser impressa com as experiências que eu teria que vivenciar, ou  colocar em xeque alguns conceitos, nada que pudesse por em risco minha identidade, mas apenas legitima-la.


Os anos  passaram e meu empirismo levou-me à certeza de que não há como fechar este ciclo, podemos virar uma página e seguir com a leitura, mas em dado momento, um flash-back se faz necessário e nos vemos mergulhando em memórias esquecidas. Algumas memórias me parecem “gatilho”, tamanho o reboliço de emoções evocadas, fico perdida em meio a sensações e sentimentos, mas são momentos que me forçam a uma nova releitura. Nada é exatamente o que parece ser e o que está diante dos nossos olhos possuem muitas nuances, vozes, cheiro, dimensão e merecem respeito. Certo seria ficar contemplativa, quieta, distante, silenciosa e esperar, esperar. Sei da angústia que a espera carrega nos ombros e de sua habilidade ninja em lança-la, sobre os nossos, entretanto, uma medida de paciência e fé há de colocar tudo, no seu devido lugar.

terça-feira, 25 de setembro de 2018



Ao ler-me. 
Vitalina de Assis.




Demarcar termos ou limites; fixar. Indicar com precisão. Diferençar. Resolver. Ordenar. Trazer consigo. Ocasionar. Introduzir, decidir. Distinguir, assentar.

Esta é o significado de determinação segundo o dicionário Aurélio. Quanto mais  associo estes significados à minha pessoa sinto que não combino muito com estes termos, isto, no meu olhar crítico, este olhar que todos nós carregamos e que por vez ou outra ofende nossa identidade  interior.

Não sei quando aprendemos a nos resignar e a aceitar rótulos que não nos define, e que  certamente não rouba nossa essência, embora acreditemos que sim inúmeras vezes. Nossa essência jamais poderá ser roubada, pois se encontra em lugar que o outro, não pode penetrar, não conhece o acesso e ainda que fosse o Indiana Jones ficaria à margem, completamente desolado por sua incompetência por não encontrar o tesouro.

A este lugar secreto, onde repousa nosso tesouro, só nós possuímos o acesso e quantas vezes ao chegarmos lá, não nos damos conta da riqueza e do brilho e isto porque existem inúmeras vozes, rótulos que estão a ofuscar encobrindo o que não pode ser encoberto e por vezes, aceitamos o inaceitável.

Preciso reconhecer que tenho o poder de demarcar, limitar, fixar, indicar com precisão e, por ter em mim, no mais recôndito do meu ser, a verdade de que sou mais do que o corpo que  me abriga, mais do que o conhecimento adquirido no dia a dia, muito mais do que penso ser ou ter.  Sou parte de Deus, uma fração de sua divindade e quando me reconheço, sei o quanto assumir e aceitar esta divindade me aproxima do meu propósito de vida.  Ciente disto posso diferençar, resolver, ordenar, trazer comigo. Ocasionar, introduzir, decidir. Distinguir o que ao redor se move, e decidir se permito que se assente como um sentimento que me torna melhor, ou soprar como a brisa e lançar à brisa minha profunda gratidão.  

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Afinal, todo mundo tem seu dia de Spike - 2ª PARTE.






Estou confuso, interiormente confuso. Não sei o que pode ter mudado na ordem dos meus sentidos após a cirurgia, mas algo sinistro aconteceu.


Saí daquela cirurgia meio aéreo, efeito da anestesia ouvi dizer. Minha cabeça rodava sem sair do lugar e imagens que eu desconhecia, com cores que não eu sabia identificar se apresentavam ante meus olhos e acenavam chamando-me.... vem... vem... vem. Como eu poderia ir se minha mãe me abraçava dizendo: 

-  calminha Spike está tudo bem, daqui a pouco vamos pra casa. 

Casa, como é bom ouvir esta palavra, é muito mais do que uma agradável sonoridade. Casa é lar, é onde você se encontra, é seu território sem nunca ter tido a necessidade de lutar pela posse. Podem acreditar, ainda me lembro do dia em que cheguei naquele apartamento, parecia bem maior do que o da minha mãe canina, a Lara, Tamara era a mãe humana de Lara Larinha, portanto minha avó. Também me lembro dela, era muito carinhosa comigo e recebia muitas visitas, os irmãos da igreja e em uma noite pra lá de especial eu  conheci minha mãe Vitalina e sua filha Thamyrez, esta ficou literalmente babando por mim. Thamyrez devia ter quatro ou cinco anos e não me deixou em paz, não quis me largar nem para comer, imagina isto. Minha vó Tamara ficou observando e vi no seu olhar, um misto de emoção e uma lágrima fininha no canto de seus olhos. Olhava para mim, depois para a Thamyrez e fitou minha mãe, que na época, era sua Pastora. Não sei como tive esta intuição, mas sabia que meu destino havia sido selado naquele momento. Aquele olhar que elas trocaram dizia muita coisa, de um lado senti o ato de dar, doar uma vida para ser amada e cuidada e do outro, o ato de receber, eu quero amar e cuidar de você. Mais alguns minutos e chegava ao fim aquele encontro alegre, foram feitas algumas preces de agradecimento e eu no colo da maninha. Minha vó se aproxima da pastora e a ouço dizer: 

- Pastora Cida, (era este seu nome de guerra, rs)  a Thamyrez não desgrudou do filhotinho da Lara nem por um segundo, vou dar ele pra ela agora, pode ser? 

Minha mãe sorriu de uma orelha a outra, mas é lógico que ela estava de olho em mim e assim encontrei o meu lar, doce lar. Thamyrez mal dormiu nesta noite, ficou me corujando e seguindo meus passinhos. Ela não entendia que eu precisava de espaço para explorar cada cantinho e batizar cada lugarzinho especial, mas fiquei com vergonha de fazer xixi pela casa afora, pois já tinha sido colocado um jornal estratégico na área, bem debaixo do tanque e então, apenas lambi discretamente aqui e ali e corri para o jornal. 

O cansaço tomou conta de mim, eu queria dormir e Thamyrez me levou pro quarto dela, mas eu não queria dormir ali. Meu alvo? Quarto da minha mãe. Fingi adormecer e ela dormiu sem fingimentos, eu levantei e me instalei ao lado da cabeceira da mamãe, ela sorriu, acariciou minha cabeça ao dizer:

 -  menino, vamos dormir. Você vai se chamar Spike, Spike White. Bora dormir, Spike? 

Gostei do nome chick! Nada de Branquinho, Totó, Lulu, Luke. Spike, esse cara sou. "Nossa, que menino esperto" já estava virando clichê. Era música aos meus ouvidos e verdade seja dita, isto eu sou mesmo. Minha inteligência canina sempre foi muito aguçada e como conversavam muito comigo, só faltava mesmo era eu abrir a boca e dizer algumas palavras, mas ficariam muito assustados, então segurava a minha onda e me comportava super bem, um gentledog  (ok, não existe esta palavra no seu vocabulário? É bom ir se acostumando com minha criatividade) que não perdia minha mãe de vista. Ela conversa o tempo todo comigo, pergunta se sua  roupa está boa, fala de seus amores e desafetos e já a vi chorando algumas vezes. O que eu faço? Fico de pé e coloco minhas patinhas em sua perna. Ela me olha, me faz um chamego e para de chorar ou solta o verbo e conta tudo o que está acontecendo. Presenciei muitos momentos dolorosos, separação, divórcio e outras coisas que um bom confidente jamais deve contar para alguém, pois guardamos na alma e sentimos a dor do outro. Ela me olhava com carinho e dizia: 

- Tem alguém muito especial aí dentro de você cuidando de mim, não tem? 

Eu ficava meio desconcertado com esta pergunta que não parecia ter lógica. Como assim, alguém dentro de mim? Não é desta forma que fomos criados. Somos seres únicos, temos alma e amamos, amamos muito. Arrisco dizer que se somos possuídos, este alguém que nos possui é um puro sentimento na sua mais profunda essência, é o amor. Sou feito de amor da cabeça aos pés e nem pensem que Ana Carolina é  assim como  gosta de cantar, pois não é mesmo. Entenda-me, não estou falando mal, desacreditando de sua música, ou desmerecendo suas intenções, mas humanos amam por medidas fracionadas, nós pets, amamos por inteiro, na totalidade e isto significa que se não somos amados na mesma medida, a nossa vai sempre extrapolar. Se amamos mais A do que B? Eu não afirmaria isto, o que eu sei é que a nossa alma se liga à alma de um humano que nos cuida, ou vice-versa, e eu ainda não sei como se processa esta escolha, mas compreendo que ela existe.

O Xamanismo acredita que cada humano tem o seu "animal de poder", ou seja, guias animais protetores que podem  ajudá-los na sua jornada, uma vez que por suas características podem aumentar  sua força e os ajudar a vencer suas fraquezas. Eu acredito nisto, mas você já percebeu que nem todos os humanos são capazes de adotar um animal, assim como também não tem "vocação" para gerarem filhos? Então eu só posso concluir que, quando um humano é escolhido para ter seu "filhote" e quando este "filhote" elege seu humano naquele grupo, ambos foram ligados por laços estreitos de amor. Minhas irmãs, quando crianças, com oito anos de diferença tiveram várias fases: cuidar, amar, brigar, ficar sem conversar por horas e até tapa já vi rolar. Thamyrez cresceu rápido, a maior da casa e tamanho, (sou pequeno, mas posso compreender) impõe respeito e Talita tinha que ficar pianinho. Eu também tive minhas fases luas, mas em todas elas prevaleceu o amor.

Então, após a cirurgia, já sem o tumor, sem minhas respeitáveis e inocentes bolas e alguns dentes fora da minha boca, fui voltando a mim lentamente e quando me senti sóbrio o bastante pedi para descer pro chão. Que felicidade poder andar, estar vivo e apesar daquele enjoo, caminhei até à porta da sala de cirurgia. O anestesista ali estava se organizando para receber outro paciente, mirei-o com um terno olhar e ele entendeu que era um gesto de agradecimento. 

- oi Spike você veio me agradecer? Não precisa, viu? Você agora é um novo cara, tá novinho em folha. 

Sorri e pensei, é, tá certo, quer trocar de lugar comigo? Alguma coisa me dizia que eu não estava 100%. Sabe aquela impressão de que tem uma nuvem meio escura sobre sua cabeça? Tudo está aparentemente bem, mas você não se convence e fica meio sombrio. Minha mãe se lesse os meus pensamentos diria: 

- deixa disto Spike, pare de pensar bobagens, está tudo bem, lembre-se, você cria sua realidade, então vamos visualizar seu pronto restabelecimento? Você está novinho em folha. 

Sinceramente eu não entendo esta expressão ...  novinho em folha. O que tenho eu, Spike Whith, branco como a lã,  tenho a ver com folhas? Até onde eu sei elas são verdes, mas deixe estar, nunca pretendi versar como minha mãe e algum fundamento, esta expressão há de ter com certeza. 

Doutor Léo disse que estávamos liberados, passou uma receita gigante e fomos para casa. No caminho paramos na farmácia e eu enjoadinho no colo chamei a atenção de todos: 

- tadinha, o que ela tem? 

Não sei por que todo mundo acha que cachorro é fêmea, mas acho que os humanos não conseguem detectar pela cara se somos macho ou fêmea. Isto nos humanos é mais evidente, mas eu fico extremamente confuso com algumas pessoas que vejo na tv.   

Em casa, no sossego do meu lar aquela nuvem insistia em assombrar-me, mas adormeci e um sono estranho se apossou de mim. Pela manhã, ao acordar minha cabeça não doía, aliás, isto é uma das coisas que tenho em comum com a minha mãe, minha cabeça nunca doeu, mas estava pesada, muito pesada. E de repente, sem que me desse conta, comecei a esfregar involuntariamente minhas patas pela cara afora e por mais que eu tentasse, não conseguia deixar de fazê-lo, era como se estivesse possuído. Pensei na nuvem que me seguia e senti meu cérebro em curto, pequenas faíscas e apagões e uma vontade enorme de fugir de tudo isto. Quando me dei por mim, minha mãe segurava minhas patas sujas de sangue tentando impedir meus movimentos, meu peito estava sujo de sangue, minha boca estava ensanguentada e ela concluiu que eu tinha forte dor na gengiva e somente por isto estava meio que enlouquecido. Não sentia dor em lugar algum, mas não fui capaz de conter minhas patas, parecia querer engoli-las e machuquei minhas gengivas que sangravam e me coloriam de vermelho, Estava mais para vampiro do que para cachorro.

Já falei da Doutora Fernanda, ela é mesmo muito gata. Atendeu-me com carinho, medicou-me para a dor, checou minha cirurgia e parecia tudo bem. Também pensou que fosse dor o que eu havia sentido, mas eu sabia que a coisa não era tão simples assim. Voltaria novamente durante a noite gritando, não de sofrimento, mas de pânico por conta destes bruscos movimentos que eu não conseguia controlar e que nada tinha a ver com o mal que eu estava vivenciando.  A dor que eu sentia era a dor do medo e a certeza de algo muito grave estava acontecendo comigo. Antes que me internassem para observação tive outra crise que diziam ser convulsão e ainda assim não perceberam tratar-se de uma epilepsia já instalada. A tal nuvem tinha nome e dizia-me ter vindo para ficar ou me levar, isto seria lá com ela.  Fiquei internado quatro dias, dos quais pouca coisa me recordo. Doutora Clarice medicou-me e recebi alta, ela estava certa de que o medicamento controlado poria fim em minhas crises, mas aconselhou um neurologista, caso elas persistissem. Em casa, muitas e muitas crises me trouxeram de volta e ainda estou por aqui. Minhas convulsões estão controladas com medicamentos pesados e o próximo passo será diminuí-los gradativamente até achar o x da questão, ou seja, a dose ideal  que me mantenha sem as terríveis crises e consciente de quem eu sou,  e onde estou. 



No momento me perco entre a realidade e o sonho, entre estar consciente e seguir alienado. Meus momentos mais felizes começam por volta das 19:00, é quando minha mãe chega e me põe no colo. Mesmo ausente e parecendo um molambo de pelo que vocaliza gemidos, estou consciente da sua presença e seu amor me enche de esperanças. Ela às vezes não consegue esconder as lágrimas, e ainda assim é todo o porto seguro de que preciso. Dias melhores estão por vir meu pequeno, e um beijo suave na minha testa é a deixa que me manda de volta pra minha solitária, que de solitária, não tem nada. Tem muitos peludos por aqui e eu ando bem enturmado com a turma.