quarta-feira, 4 de julho de 2018

Afinal, todo mundo tem seu dia de Spike - 2ª PARTE.






Estou confuso, interiormente confuso. Não sei o que pode ter mudado na ordem dos meus sentidos após a cirurgia, mas algo sinistro aconteceu.


Saí daquela cirurgia meio aéreo, efeito da anestesia ouvi dizer. Minha cabeça rodava sem sair do lugar e imagens que eu desconhecia, com cores que não eu sabia identificar se apresentavam ante meus olhos e acenavam chamando-me.... vem... vem... vem. Como eu poderia ir se minha mãe me abraçava dizendo: 

-  calminha Spike está tudo bem, daqui a pouco vamos pra casa. 

Casa, como é bom ouvir esta palavra, é muito mais do que uma agradável sonoridade. Casa é lar, é onde você se encontra, é seu território sem nunca ter tido a necessidade de lutar pela posse. Podem acreditar, ainda me lembro do dia em que cheguei naquele apartamento, parecia bem maior do que o da minha mãe canina, a Lara, Tamara era a mãe humana de Lara Larinha, portanto minha avó. Também me lembro dela, era muito carinhosa comigo e recebia muitas visitas, os irmãos da igreja e em uma noite pra lá de especial eu  conheci minha mãe Vitalina e sua filha Thamyrez, esta ficou literalmente babando por mim. Thamyrez devia ter quatro ou cinco anos e não me deixou em paz, não quis me largar nem para comer, imagina isto. Minha vó Tamara ficou observando e vi no seu olhar, um misto de emoção e uma lágrima fininha no canto de seus olhos. Olhava para mim, depois para a Thamyrez e fitou minha mãe, que na época, era sua Pastora. Não sei como tive esta intuição, mas sabia que meu destino havia sido selado naquele momento. Aquele olhar que elas trocaram dizia muita coisa, de um lado senti o ato de dar, doar uma vida para ser amada e cuidada e do outro, o ato de receber, eu quero amar e cuidar de você. Mais alguns minutos e chegava ao fim aquele encontro alegre, foram feitas algumas preces de agradecimento e eu no colo da maninha. Minha vó se aproxima da pastora e a ouço dizer: 

- Pastora Cida, (era este seu nome de guerra, rs)  a Thamyrez não desgrudou do filhotinho da Lara nem por um segundo, vou dar ele pra ela agora, pode ser? 

Minha mãe sorriu de uma orelha a outra, mas é lógico que ela estava de olho em mim e assim encontrei o meu lar, doce lar. Thamyrez mal dormiu nesta noite, ficou me corujando e seguindo meus passinhos. Ela não entendia que eu precisava de espaço para explorar cada cantinho e batizar cada lugarzinho especial, mas fiquei com vergonha de fazer xixi pela casa afora, pois já tinha sido colocado um jornal estratégico na área, bem debaixo do tanque e então, apenas lambi discretamente aqui e ali e corri para o jornal. 

O cansaço tomou conta de mim, eu queria dormir e Thamyrez me levou pro quarto dela, mas eu não queria dormir ali. Meu alvo? Quarto da minha mãe. Fingi adormecer e ela dormiu sem fingimentos, eu levantei e me instalei ao lado da cabeceira da mamãe, ela sorriu, acariciou minha cabeça ao dizer:

 -  menino, vamos dormir. Você vai se chamar Spike, Spike White. Bora dormir, Spike? 

Gostei do nome chick! Nada de Branquinho, Totó, Lulu, Luke. Spike, esse cara sou. "Nossa, que menino esperto" já estava virando clichê. Era música aos meus ouvidos e verdade seja dita, isto eu sou mesmo. Minha inteligência canina sempre foi muito aguçada e como conversavam muito comigo, só faltava mesmo era eu abrir a boca e dizer algumas palavras, mas ficariam muito assustados, então segurava a minha onda e me comportava super bem, um gentledog  (ok, não existe esta palavra no seu vocabulário? É bom ir se acostumando com minha criatividade) que não perdia minha mãe de vista. Ela conversa o tempo todo comigo, pergunta se sua  roupa está boa, fala de seus amores e desafetos e já a vi chorando algumas vezes. O que eu faço? Fico de pé e coloco minhas patinhas em sua perna. Ela me olha, me faz um chamego e para de chorar ou solta o verbo e conta tudo o que está acontecendo. Presenciei muitos momentos dolorosos, separação, divórcio e outras coisas que um bom confidente jamais deve contar para alguém, pois guardamos na alma e sentimos a dor do outro. Ela me olhava com carinho e dizia: 

- Tem alguém muito especial aí dentro de você cuidando de mim, não tem? 

Eu ficava meio desconcertado com esta pergunta que não parecia ter lógica. Como assim, alguém dentro de mim? Não é desta forma que fomos criados. Somos seres únicos, temos alma e amamos, amamos muito. Arrisco dizer que se somos possuídos, este alguém que nos possui é um puro sentimento na sua mais profunda essência, é o amor. Sou feito de amor da cabeça aos pés e nem pensem que Ana Carolina é  assim como  gosta de cantar, pois não é mesmo. Entenda-me, não estou falando mal, desacreditando de sua música, ou desmerecendo suas intenções, mas humanos amam por medidas fracionadas, nós pets, amamos por inteiro, na totalidade e isto significa que se não somos amados na mesma medida, a nossa vai sempre extrapolar. Se amamos mais A do que B? Eu não afirmaria isto, o que eu sei é que a nossa alma se liga à alma de um humano que nos cuida, ou vice-versa, e eu ainda não sei como se processa esta escolha, mas compreendo que ela existe.

O Xamanismo acredita que cada humano tem o seu "animal de poder", ou seja, guias animais protetores que podem  ajudá-los na sua jornada, uma vez que por suas características podem aumentar  sua força e os ajudar a vencer suas fraquezas. Eu acredito nisto, mas você já percebeu que nem todos os humanos são capazes de adotar um animal, assim como também não tem "vocação" para gerarem filhos? Então eu só posso concluir que, quando um humano é escolhido para ter seu "filhote" e quando este "filhote" elege seu humano naquele grupo, ambos foram ligados por laços estreitos de amor. Minhas irmãs, quando crianças, com oito anos de diferença tiveram várias fases: cuidar, amar, brigar, ficar sem conversar por horas e até tapa já vi rolar. Thamyrez cresceu rápido, a maior da casa e tamanho, (sou pequeno, mas posso compreender) impõe respeito e Talita tinha que ficar pianinho. Eu também tive minhas fases luas, mas em todas elas prevaleceu o amor.

Então, após a cirurgia, já sem o tumor, sem minhas respeitáveis e inocentes bolas e alguns dentes fora da minha boca, fui voltando a mim lentamente e quando me senti sóbrio o bastante pedi para descer pro chão. Que felicidade poder andar, estar vivo e apesar daquele enjoo, caminhei até à porta da sala de cirurgia. O anestesista ali estava se organizando para receber outro paciente, mirei-o com um terno olhar e ele entendeu que era um gesto de agradecimento. 

- oi Spike você veio me agradecer? Não precisa, viu? Você agora é um novo cara, tá novinho em folha. 

Sorri e pensei, é, tá certo, quer trocar de lugar comigo? Alguma coisa me dizia que eu não estava 100%. Sabe aquela impressão de que tem uma nuvem meio escura sobre sua cabeça? Tudo está aparentemente bem, mas você não se convence e fica meio sombrio. Minha mãe se lesse os meus pensamentos diria: 

- deixa disto Spike, pare de pensar bobagens, está tudo bem, lembre-se, você cria sua realidade, então vamos visualizar seu pronto restabelecimento? Você está novinho em folha. 

Sinceramente eu não entendo esta expressão ...  novinho em folha. O que tenho eu, Spike Whith, branco como a lã,  tenho a ver com folhas? Até onde eu sei elas são verdes, mas deixe estar, nunca pretendi versar como minha mãe e algum fundamento, esta expressão há de ter com certeza. 

Doutor Léo disse que estávamos liberados, passou uma receita gigante e fomos para casa. No caminho paramos na farmácia e eu enjoadinho no colo chamei a atenção de todos: 

- tadinha, o que ela tem? 

Não sei por que todo mundo acha que cachorro é fêmea, mas acho que os humanos não conseguem detectar pela cara se somos macho ou fêmea. Isto nos humanos é mais evidente, mas eu fico extremamente confuso com algumas pessoas que vejo na tv.   

Em casa, no sossego do meu lar aquela nuvem insistia em assombrar-me, mas adormeci e um sono estranho se apossou de mim. Pela manhã, ao acordar minha cabeça não doía, aliás, isto é uma das coisas que tenho em comum com a minha mãe, minha cabeça nunca doeu, mas estava pesada, muito pesada. E de repente, sem que me desse conta, comecei a esfregar involuntariamente minhas patas pela cara afora e por mais que eu tentasse, não conseguia deixar de fazê-lo, era como se estivesse possuído. Pensei na nuvem que me seguia e senti meu cérebro em curto, pequenas faíscas e apagões e uma vontade enorme de fugir de tudo isto. Quando me dei por mim, minha mãe segurava minhas patas sujas de sangue tentando impedir meus movimentos, meu peito estava sujo de sangue, minha boca estava ensanguentada e ela concluiu que eu tinha forte dor na gengiva e somente por isto estava meio que enlouquecido. Não sentia dor em lugar algum, mas não fui capaz de conter minhas patas, parecia querer engoli-las e machuquei minhas gengivas que sangravam e me coloriam de vermelho, Estava mais para vampiro do que para cachorro.

Já falei da Doutora Fernanda, ela é mesmo muito gata. Atendeu-me com carinho, medicou-me para a dor, checou minha cirurgia e parecia tudo bem. Também pensou que fosse dor o que eu havia sentido, mas eu sabia que a coisa não era tão simples assim. Voltaria novamente durante a noite gritando, não de sofrimento, mas de pânico por conta destes bruscos movimentos que eu não conseguia controlar e que nada tinha a ver com o mal que eu estava vivenciando.  A dor que eu sentia era a dor do medo e a certeza de algo muito grave estava acontecendo comigo. Antes que me internassem para observação tive outra crise que diziam ser convulsão e ainda assim não perceberam tratar-se de uma epilepsia já instalada. A tal nuvem tinha nome e dizia-me ter vindo para ficar ou me levar, isto seria lá com ela.  Fiquei internado quatro dias, dos quais pouca coisa me recordo. Doutora Clarice medicou-me e recebi alta, ela estava certa de que o medicamento controlado poria fim em minhas crises, mas aconselhou um neurologista, caso elas persistissem. Em casa, muitas e muitas crises me trouxeram de volta e ainda estou por aqui. Minhas convulsões estão controladas com medicamentos pesados e o próximo passo será diminuí-los gradativamente até achar o x da questão, ou seja, a dose ideal  que me mantenha sem as terríveis crises e consciente de quem eu sou,  e onde estou. 



No momento me perco entre a realidade e o sonho, entre estar consciente e seguir alienado. Meus momentos mais felizes começam por volta das 19:00, é quando minha mãe chega e me põe no colo. Mesmo ausente e parecendo um molambo de pelo que vocaliza gemidos, estou consciente da sua presença e seu amor me enche de esperanças. Ela às vezes não consegue esconder as lágrimas, e ainda assim é todo o porto seguro de que preciso. Dias melhores estão por vir meu pequeno, e um beijo suave na minha testa é a deixa que me manda de volta pra minha solitária, que de solitária, não tem nada. Tem muitos peludos por aqui e eu ando bem enturmado com a turma. 


segunda-feira, 18 de junho de 2018

Afinal, todo mundo tem seu dia de Spike.




Por Vitalina de Assis. 







Aqui estou, depois de trinta minutos em um bloco cirúrgico. Estava com um tumor externo, na área circundante do ânus a ser retirado e uma bela de uma tartarectomia canina a ser realizada e de quebra, o veterinário orientou que, em se tratando de um tumor perianal, que são relativamente comuns nos cães geriátricos (sou um  bisavô, foi assim que o doutor Leonardo, Léo para os íntimos, se referiu à minha pessoa com o devido respeito, penso eu) e o tratamento consiste na remoção da massa e castração para evitar ressurgimentos.  O doutor Léo chamou-me de bisavô, ok, não tive filhos, não tenho netos, tampouco terei bisnetos, então só posso crer que me chamou de velho, é, mas ele também anda lá meio, digamos, avançado em anos, no mínimo um vovô bem aparentado. Quer saber? Ser velho não deveria ser considerado vovocência e muito menos bisavocência. Beleza, não existe estas palavras no seu vocabulário? Paciência. No meu é só ladrar e criar e criar.  Então soube eu num susto, que deveria ser castrado, e o que aconteceu? Cá estou eu, sem a menor chance de jogar as bolas, estou rindo, mas é de chorar, estou mutilado. Sniff! Entretanto, verdade seja dita, não tenho herdeiros, nunca me interessei pelo sexo oposto, já nasci "eunuco". - "Veio ao mundo só pra cuidar de mim, me dar amor e carinho", é o que ouço minha mãe dizer o tempo todo. Na verdade ela queria que eu lhe desse netos, mas eu não quis saber do sexo frágil, sou muito é macho para viver sem... encrencas? Ah não, chave de cadeia, já ouvi muito humano dizendo isto, fulana, aquela bisca? Vixe! É chave de cadeia. E assim, uma tentativa de love story aqui e ali que sequer cogitei deram conta do recado. Nunca mais me apresentaram chavezinhas.

Devo esclarecer que sou um cão extremamente familiar, não tenho amigos caninos, mas me dou bem quando tenho que lidar com alguns. Nunca fui agressivo e já fiquei alguns dias na casa da tia Silvia, na companhia de muitos cães do seu canil, entre dobermans e pequenas raças. Fato é que fiquei como um hóspede dentro de sua própria casa dormindo no seu quarto, comendo na cozinha, coisas do gênero, pois canil não é bem a minha praia.

Ah sim, voltando à cirurgia, ( espera, nisto puxei minha mãe, gosto de histórias longas, mas nem pense que falo demais, sou bem reservado, na minha) correu tudo bem, delirei um bocado com o efeito da anestesia, fui parar em outros mundos, viajei geral, rs. Minha mãe ficou um pouco assustada com os meus delírios, mas ficou firme, me aconchegou no seu colo quente e entre um delírio e outro sua presença e carinho acalmava meu coração. Sabia em mim que tudo ficaria bem e ela em si, acreditava piamente no meu pronto restabelecimento. Fomos pra casa.

Durante a noite acomodamo-nos em um colchão no chão para que sua mão, sobre mim repousasse dando-me paz e tranquilidade, confesso que estava muito inquieto e com uma leve dor. Pela manhã a coisa ficou tensa, o lugar do canino extraído começou a pulsar e a doer horrores, foi então que comecei a esfregar minhas patas e sangrou com força. Minha mãe apavorada, mas tentando manter a calma levou-me de volta à clínica. A doutora Fernanda cuidou de mim, umas três agulhadas e liberou-me para casa. Que alívio! Sem dor e com fome alimentei-me bem e ficamos ali pelo sofá assistindo a copa 2018 - México x Alemanha, torcemos pro México. Minha mãe adora cantar: "México, México te llevo en mí corazón", coisas do coração mesmo, me corcho, pero no entrego a mi madre.  Eu no colo de mamis e sua mão acariciando meus pelos, isto é o céu na terra, Aleluia! 

Fomos dormir mais cedo, "tudo está no seu lugar, graças a Deus, graças a Deus", assim, melodiosamente imaginávamos e de repente, depois de uma hora e meia de um sono dos justos, acordei com aquela dor bem mais intensa. Não teve jeito, perdi a noção e comecei a esfregar freneticamente minha cara peluda, e uma nova hemorragia, desta vez mais abundante nos deixou em pânico. Novamente às pressas para o hospital e eu gritando sem parar. Outra médica, outras agulhas, outro medicamento, fiquei nauseado e chamei o Juca. (Não sabe o que é isto? Vomitei, vomitei, vomitei e tinha uma rajada de sangue mesclada naquilo tudo, sangue que engoli) outro medicamento para cessar os vômitos, minha mãe chorando e eu cada vez mais fragilizado e nem todo carinho, no meu pequeno mundo, mostrou-se o suficiente. Os tais remédios causaram uma confusão em mim e antes que eu fosse devidamente internado, lá estava eu tendo minha primeira convulsão. Mas o que é isto que está acontecendo comigo? Outra agulhada, mas será que estão achando que sou feito de tecido? Querem me costurar? Remendar? Que diabos é isto? Fui me acomodando em meio a este caos. Acomodar na minha idade é quase uma regra de sobrevivência, vamos ficando velhos e facilmente manejáveis de cá pra lá, de lá pra cá. Se não estivermos entre pares que nos amam de verdade, ficaremos à mercê do bom humor e paciência reinante. Não é assim? Quando bebês não tem importância se fazemos pipi aqui ou ali, mas quando velhos mijamos em qualquer lugar e isto pode ser a gota d’água. Felizmente minha mãe compreendeu isto, ela também está envelhecendo, (Eita! Ela só faz xixi no banheiro, viu?) ou melhor, amadurecendo, meditando, buscando paz com todos e com o universo, nem reclama mais, limpa e me olha com amor.  Ela pensa nos seus dias por vir e deseja muito ser tratada com respeito e amor na sua velhice, todos desejamos isto e se plantamos amor e tolerância, é certo que nossa colheita não poderá ser diferente.

Ela me beijou e disse-me que eu ficaria internado com aquelas doutoras gatas, que me diziam coisas meigas e cheiravam o meu pelo perfumado com a loção victoria secret da mamãe. “Nossa, um dog cheiroso assim vai receber cheiro o tempo todo. Pode ficar tranquila mãe, vamos cuidar do seu garoto Spike”. O cansaço tomou conta de mim, apaguei naquele colo que não era o da minha mãe, mas que também era quente e confortável.

terça-feira, 20 de março de 2018

Detalhes, grandes detalhes.


Por Vitalina de Assis.







E assim ela percebeu que o muito pensar e analisar emoções podem não ser o caminho que conduz a uma paz interior. Mas o que fazer com todos estes sentimentos conflitantes que abriga no recôndito de seu ser? Ignorá-los seria o suficiente para afastá-los de vez? Tentou não pensar, tentou bloquear as emoções, decidiu sorrir. Deixou um sorriso flertar em sua face, sentiu uma leveza pousar sobre seus ombros, moveu seu corpo, relaxou  pescoço e ombros -  vestiu-se de paz. Fechou os olhos e decidiu escrever no escuro de suas pálpebras. Às vezes precisamos de poucos minutos para tornar-nos ausência em tudo o que realmente não somos e deixar fluir nossa verdadeira essência, essa que brilha e que, não poucas vezes, ofuscamos momentaneamente seu brilho.


Mais um dia se foi e outro igualmente chegou, amanheceu em outro tempo, outra luz da manhã incidiu sobre ela, e deu-se conta de que a leveza ainda estava ali. Constatar este fato desconcertou-a. Sentir-se mais leve não era seu costumeiro espírito. O que mudara afinal? Questiona sua mente em uma lógica que não  equacionou-se em seu sentir. Ah! Os seus sentimentos -  deu-se conta de que uma simples atitude, uma troca de pensamentos alterou a superfície do seu sentir. Apenas isto? Questionou seu espírito. Mais um pouco e refletiu que qualquer mudança, por mais insignificante que pareça, já coloca em curso um movimento.


Ontem trocou de lugar sua mobília da sala de estar, deslocou o sofá para a parede oposta e a televisão seguiu o mesmo rumo, as cadeiras de apoio giraram sobre seu próprio eixo e lá se foram para o outro lado, e não é que parecem mais altivas? Ela jurou nunca ter reparado o quanto eram sóbrias e não apenas lindas, afinal o preço que pagou por elas, por si só, já era um grande presente. Muitas "ofertas relâmpagos" nos parecem apenas isto, pechincha, e deixamos de enxergar os detalhes, os grandes detalhes. Alguém se incomodou com você e preparou tudo isto, separou com carinho, combinou horário, preço e sem um motivo específico lá estão seus pés a conduzir-te e seu olhar estrategicamente brilha sobre algo especial. São coloridas, flores no encosto, no assento e uma madeira lisa e reluzente a dar-lhe a forma. São lindas e uma felicidade despretensiosa a envolvê-las  contagia todo o seu ser. Será possível? Só custa isto? Perguntou para a jovem vendedora que sorriu-lhe ao dizer:


- São suas e estão prontas para mudar-se para sua casa. Já consigo vê-las compondo lindamente sua sala de estar. E uma piscadela foi o suficiente para que ela não pensasse duas vezes, não possuí-las estava fora de cogitação. Sabe quando conhecemos alguém e é como se o conhecêssemos a vida inteira? Era esta a sensação que lhe vinha à mente, uma familiaridade e conforto a encher-lhe a alma. Naquela tarde foram entregues e ela sentou-se em uma, pulou para a outra, tirou fotos, fez infinitas selfies, estava visivelmente feliz.


Uma brisa leve esvoaçou a cortina e a trouxe de volta ao seu quarto, sentiu o aroma de café que sabia vir do apartamento ao lado, conferiu as horas e agradeceu pela paz de um novo dia.



quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Enquanto minha, Vida.




Por Vitalina de Assis.







Quem acompanha meu blog sabe que perdi minha amiga Ana Maria, em meus braços há poucos meses. Lidar com a morte de tão perto é algo que nos marca para sempre. Isto porque a morte é silenciosa, chega sem alarde e sequer sentimos sua presença. Nunca pensamos nesta possibilidade de fato, pois a esperança não abre mão do seu espaço nem mesmo quando fica evidente que a vida já foi ceifada.

Meus olhos viram sua vida esvaindo-se, e minha voz e mãos tentando segurá-la a todo custo, mas foi em vão. Não gritei como algumas pessoas gritariam, não soquei seu peito na esperança de reanimar seu coração e segurei minhas lágrimas. Não me atrevi a chorar no momento da passagem, pois se instalou uma reverência e um peso tão forte, que fiquei sem forças. Penso que quem parte, espera de nós, esta atitude em respeito. Um bebê chora ao nascer para evidenciar sua vida, e a Vida, quando se vai, deseja ir tranquila e serena. Quando a morte flerta com a Vida, ela toca, faz um afago e regressa sozinha, quem sabe feliz por permitir mais um tempo, um tempo de apreciação, agradecimento, aprendizagem, arrependimentos talvez, e acima de tudo, uma ímpar oportunidade de ser grato pelas mínimas coisas, pois são elas, as pequeninas coisas, que elevam o nosso espírito e nos aproximam mais do Criador.

Na semana passada visitei a rua onde morava Ana, parei em frente ao seu portão, pensei ter voltado no tempo, estava tudo igual. Seu carro na garagem, as luzes apagadas, pois já era noite e parecia dormir o descanso merecido após um dia de trabalho. Tive ímpetos de tocar a campainha e dizer que ainda estava cedo e que eu queria tomar um café com pão de queijo e ouvir sua voz do outro lado: oi menininha, entra aí, mas lembrei-me, ela não está mais entre nós. Um dia também não estaremos entre outros, e nós, tornar-se-á um vazio que não se preenche com memórias.

Estará alguém preparado para este vazio nós? Não saberia responder até senti-lo eu mesma esvaziando-me, e pode ser que nem assim o saiba, entretanto, a vida está aí preenchendo todos os vãos, se ocupando com o nosso bem estar e felicidade. Brinda-nos com o sol da manhã mesmo que seus raios estejam adormecidos, cobre de estrelas o nosso céu e nos embala em horas tranquilas ou quiçá, insones, e repete este ciclo por dias, meses, anos a fio, com uma ordem inabalável e sem exigir favores.

- Oi, bom dia, sou a Vida. Pode, por gentileza, expressar um agradecimento por esta primorosa manhã e por ter cuidado de ti, enquanto dormias?

Saúda-nos assim? Cobra a Vida por ventura, algum favor? Com um olhar de amor, se sente realizada ao ver-nos despertar a cada manhã, acompanha-nos neste novo dia, antevendo cada passo, cuidando de cada mínimo detalhe para que estejamos bem e felizes, embora saiba que a felicidade, somos nós que a elaboramos.
  
Houve dias de desatenção para com este milagre viver, e a culpa ficou por conta da tal rotina que nos adestra para dias iguais, afinal o que muda de domingo para segunda? A ordem dos fatores não altera o produto, não é assim? Dormir, acordar, trabalhar, trabalhar, faculdade, casa, filhos, e entre estes, quando possível, malhar, “yôgar”, meditar, dormir e começar tudo de novo.

Muito corrido para momentos de agradecimento e deleite pelo simples fato de respirar? Mas afinal, o que muda de domingo para domingo? Mudo eu, muda você e se espera que neste intervalo aprenda-se a ser agradecido. Agradeça a Deus pela preciosa vida que corre em suas veias a cada manhã e fazendo isto, encontrará infinitos motivos para seguir com esta prática e uma postura de gratidão, é a chave mestra que te abre os céus.

Gratidão é um sentimento que vestimos na alma e que desnuda nossa pele.


sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Meu pai e eu.





Meu pai e eu!




Meu pai que se chama Antônio Luiz, completou oitenta anos e nesta oportunidade, gostaria de agradecer pelo cuidado e presença constante e principalmente por fazer de mim, esta mulher do bem, que sou.

Ele teve uma infância muito difícil, sofreu com racismo, pobreza, não soube quem era o seu pai, ficou parte de sua infância em um orfanato e quando pensou que seria feliz em uma família adotiva, vivenciou momentos de abandono e maus tratos, mas soube proporcionar uma infância feliz e plena aos seus cinco pimpolhos. Lembro-me dos nossos passeios nos finais de semana, nas muitas andanças por ruas e praças do bairro Padre Eustáquio em Belo Horizonte, terminando sempre na estação do trem e em passeios de locomotiva. Outras vezes, levava-nos à Base Aérea para vermos os aviões por fora e por dentro, os caminhões que ele dirigia, o seu local de trabalho, as árvores que havia plantado pelo quartel e ficávamos horas vendo as aeronaves decolando e aterrissando. Era uma festa!

Minha mãe ficava tranquila no sossego do lar e quando chegávamos com uma fome de leão, já estava pronta aquela comida gostosa que dona Dilma fazia no capricho. Como não lembrar-me da maionese toda enfeitada que o senhor fazia questão de preparar no domingo? Era comer com os olhos esperando a Luíza colocar primeiro a metade no prato dela - irmã mais velha, na nossa infância, era quase uma super Nany de vestidinho, e só depois de comer com os olhos, (ela demorava uma eternidade neste ritual) era a hora de comer rezando.

Quando fazíamos nossas travessuras (e não eram poucas) "deixa o seu pai chegar", sentenciava a Dona Dilma e achávamos a maior graça, parecia até que o fim de tarde, a bendita dezessete e trinta nunca chegaria, mas chegava e lá pelas dezessete, nosso coração parecia pulsar nas mãos, nosso medo aflorava e a Dona Dilma só observando nossa metamorfose de peraltas, à anjinhos do pau oco. Meu pai de farda azul da Aeronáutica, parecia o castigo em pessoa marchando em nossa direção. E antes que fosse dado o tal recado pela minha mãe, já estávamos todos em fila angelical, a bênção meu pai - a mão paterna estendida e o beijo de um a um estalando sobre ela, deveria ser o suficiente para colocar de volta o nosso coração no peito e afastar de vez, a maldição da sentença materna: "deixa o seu pai chegar".

Devem estar imaginando a esta altura, um pai violento, do tipo que bate, não assopra e ainda promete bater mais, batendo? Nada disto. Meu pai chegava tranquilo, tomava seu banho, jantava com os filhos à mesa e tratava de ir para a cozinha e enquanto minha mãe lavava as louças e como não poderia deixar de ser, relatava tudinho, tim tim por tim tim. Nosso coração, novamente nas mãos, petrificava! Ouvíamos o nosso nome, geralmente eu era a primeira, como assim? E a irmã mais velha? Só servia para comer a maionese primeiro? Mas verdade seja dita, ninguém fazia mais bagunça do que eu, e olha, tenho histórias de arrepiar para contar, mas fica para outra oportunidade, prometo. Então eu puxando a fila, meu pai o gigante Golias em pessoa na minha frente e a correia ou vara de marmelo na mão???? Não!!!! Apenas o dedo indicador erguido. Céus que medo!!!
- “Vem aqui, chega mais perto”.
Parecia que eu ia sucumbir em um desmaio fatal.
- “Mais perto, mais perto”.
O dedo indicador pesando mais de uma tonelada batia solenemente umas três vezes na minha testa:
- "cuidado, viu? Muito cuidado"!

TERMINOU!!! Saía eu da fila chorando muito, meu irmão vinha em seguida e assim, um a um éramos disciplinados e nossa mãe de olho acompanhando tudo. Outra sessão como esta demoraria anos. Bastava lembrar do dedo indicador pesando na testa, e todas as coisas ficavam nos seus devidos lugares: filhos respeitosos, pais amorosos e uma família unida. Nunca tivemos um desentendimento qualquer, nenhum vício, nada que pudesse contrariar os bons princípios que nos foram ensinados.

É por isto, por um pai que foi e é um exemplo em todas as suas atitudes e princípios, que eu venho prestar esta singela homenagem.

Parabéns Seu Antônio! Feliz dia dos Pais e que esta data e outras tantas te encontrem em saúde, paz e repleto das bênçãos divinas.

VOCÊ É MEU EXEMPLO! Te amo!