quarta-feira, 4 de julho de 2018

Afinal, todo mundo tem seu dia de Spike - 2ª PARTE.






Estou confuso, interiormente confuso. Não sei o que pode ter mudado na ordem dos meus sentidos após a cirurgia, mas algo sinistro aconteceu.


Saí daquela cirurgia meio aéreo, efeito da anestesia ouvi dizer. Minha cabeça rodava sem sair do lugar e imagens que eu desconhecia, com cores que não eu sabia identificar se apresentavam ante meus olhos e acenavam chamando-me.... vem... vem... vem. Como eu poderia ir se minha mãe me abraçava dizendo: 

-  calminha Spike está tudo bem, daqui a pouco vamos pra casa. 

Casa, como é bom ouvir esta palavra, é muito mais do que uma agradável sonoridade. Casa é lar, é onde você se encontra, é seu território sem nunca ter tido a necessidade de lutar pela posse. Podem acreditar, ainda me lembro do dia em que cheguei naquele apartamento, parecia bem maior do que o da minha mãe canina, a Lara, Tamara era a mãe humana de Lara Larinha, portanto minha avó. Também me lembro dela, era muito carinhosa comigo e recebia muitas visitas, os irmãos da igreja e em uma noite pra lá de especial eu  conheci minha mãe Vitalina e sua filha Thamyrez, esta ficou literalmente babando por mim. Thamyrez devia ter quatro ou cinco anos e não me deixou em paz, não quis me largar nem para comer, imagina isto. Minha vó Tamara ficou observando e vi no seu olhar, um misto de emoção e uma lágrima fininha no canto de seus olhos. Olhava para mim, depois para a Thamyrez e fitou minha mãe, que na época, era sua Pastora. Não sei como tive esta intuição, mas sabia que meu destino havia sido selado naquele momento. Aquele olhar que elas trocaram dizia muita coisa, de um lado senti o ato de dar, doar uma vida para ser amada e cuidada e do outro, o ato de receber, eu quero amar e cuidar de você. Mais alguns minutos e chegava ao fim aquele encontro alegre, foram feitas algumas preces de agradecimento e eu no colo da maninha. Minha vó se aproxima da pastora e a ouço dizer: 

- Pastora Cida, (era este seu nome de guerra, rs)  a Thamyrez não desgrudou do filhotinho da Lara nem por um segundo, vou dar ele pra ela agora, pode ser? 

Minha mãe sorriu de uma orelha a outra, mas é lógico que ela estava de olho em mim e assim encontrei o meu lar, doce lar. Thamyrez mal dormiu nesta noite, ficou me corujando e seguindo meus passinhos. Ela não entendia que eu precisava de espaço para explorar cada cantinho e batizar cada lugarzinho especial, mas fiquei com vergonha de fazer xixi pela casa afora, pois já tinha sido colocado um jornal estratégico na área, bem debaixo do tanque e então, apenas lambi discretamente aqui e ali e corri para o jornal. 

O cansaço tomou conta de mim, eu queria dormir e Thamyrez me levou pro quarto dela, mas eu não queria dormir ali. Meu alvo? Quarto da minha mãe. Fingi adormecer e ela dormiu sem fingimentos, eu levantei e me instalei ao lado da cabeceira da mamãe, ela sorriu, acariciou minha cabeça ao dizer:

 -  menino, vamos dormir. Você vai se chamar Spike, Spike White. Bora dormir, Spike? 

Gostei do nome chick! Nada de Branquinho, Totó, Lulu, Luke. Spike, esse cara sou. "Nossa, que menino esperto" já estava virando clichê. Era música aos meus ouvidos e verdade seja dita, isto eu sou mesmo. Minha inteligência canina sempre foi muito aguçada e como conversavam muito comigo, só faltava mesmo era eu abrir a boca e dizer algumas palavras, mas ficariam muito assustados, então segurava a minha onda e me comportava super bem, um gentledog  (ok, não existe esta palavra no seu vocabulário? É bom ir se acostumando com minha criatividade) que não perdia minha mãe de vista. Ela conversa o tempo todo comigo, pergunta se sua  roupa está boa, fala de seus amores e desafetos e já a vi chorando algumas vezes. O que eu faço? Fico de pé e coloco minhas patinhas em sua perna. Ela me olha, me faz um chamego e para de chorar ou solta o verbo e conta tudo o que está acontecendo. Presenciei muitos momentos dolorosos, separação, divórcio e outras coisas que um bom confidente jamais deve contar para alguém, pois guardamos na alma e sentimos a dor do outro. Ela me olhava com carinho e dizia: 

- Tem alguém muito especial aí dentro de você cuidando de mim, não tem? 

Eu ficava meio desconcertado com esta pergunta que não parecia ter lógica. Como assim, alguém dentro de mim? Não é desta forma que fomos criados. Somos seres únicos, temos alma e amamos, amamos muito. Arrisco dizer que se somos possuídos, este alguém que nos possui é um puro sentimento na sua mais profunda essência, é o amor. Sou feito de amor da cabeça aos pés e nem pensem que Ana Carolina é  assim como  gosta de cantar, pois não é mesmo. Entenda-me, não estou falando mal, desacreditando de sua música, ou desmerecendo suas intenções, mas humanos amam por medidas fracionadas, nós pets, amamos por inteiro, na totalidade e isto significa que se não somos amados na mesma medida, a nossa vai sempre extrapolar. Se amamos mais A do que B? Eu não afirmaria isto, o que eu sei é que a nossa alma se liga à alma de um humano que nos cuida, ou vice-versa, e eu ainda não sei como se processa esta escolha, mas compreendo que ela existe.

O Xamanismo acredita que cada humano tem o seu "animal de poder", ou seja, guias animais protetores que podem  ajudá-los na sua jornada, uma vez que por suas características podem aumentar  sua força e os ajudar a vencer suas fraquezas. Eu acredito nisto, mas você já percebeu que nem todos os humanos são capazes de adotar um animal, assim como também não tem "vocação" para gerarem filhos? Então eu só posso concluir que, quando um humano é escolhido para ter seu "filhote" e quando este "filhote" elege seu humano naquele grupo, ambos foram ligados por laços estreitos de amor. Minhas irmãs, quando crianças, com oito anos de diferença tiveram várias fases: cuidar, amar, brigar, ficar sem conversar por horas e até tapa já vi rolar. Thamyrez cresceu rápido, a maior da casa e tamanho, (sou pequeno, mas posso compreender) impõe respeito e Talita tinha que ficar pianinho. Eu também tive minhas fases luas, mas em todas elas prevaleceu o amor.

Então, após a cirurgia, já sem o tumor, sem minhas respeitáveis e inocentes bolas e alguns dentes fora da minha boca, fui voltando a mim lentamente e quando me senti sóbrio o bastante pedi para descer pro chão. Que felicidade poder andar, estar vivo e apesar daquele enjoo, caminhei até à porta da sala de cirurgia. O anestesista ali estava se organizando para receber outro paciente, mirei-o com um terno olhar e ele entendeu que era um gesto de agradecimento. 

- oi Spike você veio me agradecer? Não precisa, viu? Você agora é um novo cara, tá novinho em folha. 

Sorri e pensei, é, tá certo, quer trocar de lugar comigo? Alguma coisa me dizia que eu não estava 100%. Sabe aquela impressão de que tem uma nuvem meio escura sobre sua cabeça? Tudo está aparentemente bem, mas você não se convence e fica meio sombrio. Minha mãe se lesse os meus pensamentos diria: 

- deixa disto Spike, pare de pensar bobagens, está tudo bem, lembre-se, você cria sua realidade, então vamos visualizar seu pronto restabelecimento? Você está novinho em folha. 

Sinceramente eu não entendo esta expressão ...  novinho em folha. O que tenho eu, Spike Whith, branco como a lã,  tenho a ver com folhas? Até onde eu sei elas são verdes, mas deixe estar, nunca pretendi versar como minha mãe e algum fundamento, esta expressão há de ter com certeza. 

Doutor Léo disse que estávamos liberados, passou uma receita gigante e fomos para casa. No caminho paramos na farmácia e eu enjoadinho no colo chamei a atenção de todos: 

- tadinha, o que ela tem? 

Não sei por que todo mundo acha que cachorro é fêmea, mas acho que os humanos não conseguem detectar pela cara se somos macho ou fêmea. Isto nos humanos é mais evidente, mas eu fico extremamente confuso com algumas pessoas que vejo na tv.   

Em casa, no sossego do meu lar aquela nuvem insistia em assombrar-me, mas adormeci e um sono estranho se apossou de mim. Pela manhã, ao acordar minha cabeça não doía, aliás, isto é uma das coisas que tenho em comum com a minha mãe, minha cabeça nunca doeu, mas estava pesada, muito pesada. E de repente, sem que me desse conta, comecei a esfregar involuntariamente minhas patas pela cara afora e por mais que eu tentasse, não conseguia deixar de fazê-lo, era como se estivesse possuído. Pensei na nuvem que me seguia e senti meu cérebro em curto, pequenas faíscas e apagões e uma vontade enorme de fugir de tudo isto. Quando me dei por mim, minha mãe segurava minhas patas sujas de sangue tentando impedir meus movimentos, meu peito estava sujo de sangue, minha boca estava ensanguentada e ela concluiu que eu tinha forte dor na gengiva e somente por isto estava meio que enlouquecido. Não sentia dor em lugar algum, mas não fui capaz de conter minhas patas, parecia querer engoli-las e machuquei minhas gengivas que sangravam e me coloriam de vermelho, Estava mais para vampiro do que para cachorro.

Já falei da Doutora Fernanda, ela é mesmo muito gata. Atendeu-me com carinho, medicou-me para a dor, checou minha cirurgia e parecia tudo bem. Também pensou que fosse dor o que eu havia sentido, mas eu sabia que a coisa não era tão simples assim. Voltaria novamente durante a noite gritando, não de sofrimento, mas de pânico por conta destes bruscos movimentos que eu não conseguia controlar e que nada tinha a ver com o mal que eu estava vivenciando.  A dor que eu sentia era a dor do medo e a certeza de algo muito grave estava acontecendo comigo. Antes que me internassem para observação tive outra crise que diziam ser convulsão e ainda assim não perceberam tratar-se de uma epilepsia já instalada. A tal nuvem tinha nome e dizia-me ter vindo para ficar ou me levar, isto seria lá com ela.  Fiquei internado quatro dias, dos quais pouca coisa me recordo. Doutora Clarice medicou-me e recebi alta, ela estava certa de que o medicamento controlado poria fim em minhas crises, mas aconselhou um neurologista, caso elas persistissem. Em casa, muitas e muitas crises me trouxeram de volta e ainda estou por aqui. Minhas convulsões estão controladas com medicamentos pesados e o próximo passo será diminuí-los gradativamente até achar o x da questão, ou seja, a dose ideal  que me mantenha sem as terríveis crises e consciente de quem eu sou,  e onde estou. 



No momento me perco entre a realidade e o sonho, entre estar consciente e seguir alienado. Meus momentos mais felizes começam por volta das 19:00, é quando minha mãe chega e me põe no colo. Mesmo ausente e parecendo um molambo de pelo que vocaliza gemidos, estou consciente da sua presença e seu amor me enche de esperanças. Ela às vezes não consegue esconder as lágrimas, e ainda assim é todo o porto seguro de que preciso. Dias melhores estão por vir meu pequeno, e um beijo suave na minha testa é a deixa que me manda de volta pra minha solitária, que de solitária, não tem nada. Tem muitos peludos por aqui e eu ando bem enturmado com a turma. 


8 comentários:

  1. Adoro te ler e ver taaaaaaaaaaaaaaaaaaanto amor envolvido entre vocês! Eles são maravilhosos e inesquecíveis demais. Ficam pra sempre em nossas vidas!" beijos, tudo de bom,chica

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    1. Oi Chica, muito obrigada. Os animais são presentes de Deus para nossas vidas, melhor, são seres 100% amor e nos ensinam a amar. Não consigo entender como nós, seres humanos, saem por aí de arma em punho a abatê-los, pelo prazer de matar.

      Bjs.

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  2. Respostas
    1. Obrigada Gracinha. E não é que o Spike também leva jeito?

      Bjs.

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  3. Conheço essa história e talvez seja
    por conhecê-la que eu ache o cão
    igual a gente. Igual, não. Muito
    melhor.

    Saudade do meu. Muita saudade.

    .

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    1. Oi Silvio.

      Os animais são seres muito especiais, desconfio serem anjos cedidos pelo Pai.

      Bjs.

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  4. Muito interessante esta narrativa.
    Uma boa semana.
    Um beijo.

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