quinta-feira, 13 de julho de 2017

Entranhou-se



Por Vitalina de Assis.





É incrível como a felicidade acomodou-se em meu ser como se dele tivesse sido parte a vida inteira e talvez tenha sido, e só agora compreendo sua verdadeira essência. Aquela máxima de que a felicidade não existe, existindo apenas momentos felizes ficou ancorada em uma imaturidade que cresceu e aprendeu a recusar inverdades.  Não é o que se passa na epiderme, que visualiza nosso olhar, que sente a fragrância nosso olfato e muito menos a sutileza do toque, os precursores da felicidade.  Ela é de uma delicadeza e robustez autônoma e está no mais profundo do ser, não precisa ser gerada, pois existe desde sempre.

Já fui mãe por duas vezes e é incomparável a sensação e a alegria de se carregar uma vida e ser consciente do seu crescimento, sentir-se cocriadora, consumar-se mãe, entretanto gerar um filho tem o seu tempo e sua hora e decorrido este período fértil, resta-nos apenas lembranças e a dor, agonias do parto, se esquece. Findo o tempo natural jamais outra vida iremos gerar. Com a felicidade é um estar grávida eternamente, é carregar no mais profundo do ser, independente de ser mulher ou homem, outra essência, outra vida, um ser que não precisa vir à luz. É assim que sinto a felicidade em minhas entranhas. Carrego uma vida que não se limita a crescer no meu ventre, está plasmada por todo o meu corpo como se fosse uma pele a vestir-me, mas também se encontra ao meu lado, caminha, dorme, acorda, se alimenta comigo. 

Aquela sensação de sentir-me só, ou a necessidade de estar em amor com o outro ou o que quer que seja, não determina minha felicidade, embora já tenha pensado e vivido com esta concepção por muito, muito tempo. Não me condeno por isto, não condenaria quem assim vive, pois todas as coisas e momentos que vivenciamos caminham para um amadurecimento, um refinamento de nossas ideias e conceitos.  Se restasse apenas eu neste planeta ou de uma ilha deserta fizesse o meu lar, não estaria o sentimento solidão a sufocar-me. A solidão perdeu sua grandiosidade, foi obrigada a ceder lugar e vez e só se apresenta quando solicito uma quietude para estar comigo e deixar que o pensamento feito nuvem passe tranquilamente. 

Aprendi a aplicar uma nova postura que muito se assemelha a girar em torno de meu próprio eixo, digamos umbigo e qual é o verdadeiro caos em si amar mais do que tudo e todos? Parece uma atitude egoísta conjugar-me “eu” em todas as situações, mas só quando nos reconhecemos ser único e especial é que somos capazes de inverter o amor que não pareia e devotá-lo à nossa pessoa e aí acontece algo mágico, nos tornamos  ponto convergente, acredite, de mais amor, boa vontade e uma felicidade a toda prova. O Universo inteiro se volta com o único intuito de suprir-nos e uso esta palavra com o devido respeito, pois na verdade deveria usar servir. É exatamente isto que o Universo faz - servir e servir e em dado momento percebemos que fazemos exatamente o mesmo: servimos. Você de repente se surpreende servo, compreende a extensão de sua vida e que estás aqui com um propósito definido e o maior deles é se comprometer com a felicidade que irradia boa vontade e serviço para com todos.  Seria o ato servir, a exata pessoa, da felicidade? 


Passei a servir-me com mais amor, carinho, dedicação, boa vontade e, sobretudo nutrindo uma amizade profunda por meu ser. Estar comigo mesma, propiciando-me cuidados e assistência faz com que eu me expanda em direção aos outros e este expandir e servir é a felicidade que não me cabe mais.