quinta-feira, 27 de abril de 2017

Transparência.


Por Vitalina de Assis.





O que acontece quando de repente, a Felicidade nos visita? E mais, quando trás consigo um amor atrelado e a esperança de que finalmente, o amor nos encontrou? E quando este amor, nada indiferente, sinaliza dias melhores e parece varrer do seu universo a solidão? Ecoas: - agora sim visualizo o amor... está para mim, assim como os dias estão para o amanhecer. Busco na memória dias sofridos, solidão angustiante e o momento exato, em que os céus bradam em alto e bom som em sintonia com o coração universal: - findo seus dias maus e te mergulho em tranquilas águas, te levo ao porto, faço-te repousar.

Então o silêncio se impõe. Hei de findar esta história, pontuar o desinteresse e por fim calar o outro que ainda fala e sente. É este o caminho correto a se trilhar? Caberá ao silêncio uma responsabilidade tão absurda? Não! O silêncio sabe ser mudo, indiferente, cruel, desumano, mas pode ser uma dádiva ao ocultar as palavras.  Eu sei o que é o silêncio e a sua relevância quando tudo é grito, desordem, uma confusão que se pode tocar. Ele é refrigero e descanso nos momentos mais gritantes. Sabe aclarar nossas dúvidas, calar nosso medo e gentilmente enxugar nossas lágrimas. Mas nem sempre é assim e ele não faz julgamentos,  não pondera sobre as consequências, não avalia o risco e a dor que se impõe. Quem avalia a dor do silêncio, é quem o sente.
Morrestes teu amor. Foi sepultado há horas e você insiste em falar com ele,  imagina ouvir sua voz, deseja tocá-lo e dizer que o ama, que ele representa seu mundo, aliás, você nem sabia que ele tinha tanta relevância. As cores que admirava nas flores e folhas é como se tivessem sido filtradas momentaneamente  por sua retina que  fechou-se para sempre e as tornavam, especialmente coloridas. E agora? Que "descolor" é este que enxergas em todas as coisas? Que sol sem esplendor é este que insiste em invadir seu quarto? Onde está o brilho quente de seus raios? E este oxigênio que entra por suas narinas e que trás um odor e um peso que te faz prender a respiração? Não quero prender, desejo soltar todo este ar, esvaziar e nunca mais encher minha vida de luz e cor. E o amanhã? O que é o amanhã para este hoje que não se nomeia dia? Que não é noite ou madrugada, que sequer é um tempo em horas, minutos, segundos? Congelou. Gelo, pedra, iceberg, Polo norte, Polo sul, geleiras imensas em minha alma cobrem o céu. Céu? O que é o céu? Que cor possuía até então? Que encantos e esperanças traziam? Estava sobre mim seu firmamento?

Sob meus pés se esconde agora. Meus pés. Para onde me levará estes passos que não consigo dar? Olho e contemplo sua inércia, não desejam ir, não desejam vir. Desejam morrer. Quem sabe se morressem meus pés, encontraria descanso o corpo que deseja caminhar, mas não sabe para onde ir, onde pousar, onde encontrar abrigo. Minha alma também chora. Desespera uma angústia que agora se estende como um firmamento sobre mim, como um manto que pelas bordas sinto cair levemente, sufocante, pesado.  Pareceu-me um sensível véu transparente, pareceu-me. Um dia um deles brincou de seduzir. Branco, leve, esvoaçante, translúcido. Encobria, mas deixava exposta uma nudez sem pecado, uma nudez feliz, uma nudez que envolvia e permeava todo o recinto. Não era o silêncio a envolver, não era uma presença neblina que chega e se vai tão imperceptível como veio. Era som. Vibrava por todo o corpo, ecoava por  paredes  mudas que silenciavam ainda mais. Não ousavam proferir ruídos. Desejavam ouvir, conhecer segredos e guardá-los como se guarda a alma. 

Um dia soube a alma guardar um segredo. Um dia soube o segredo guardar-se. Um dia soube o segredo revelar-se, e quando  aprende a se expor, o faz em ânsias de desconforto. Desconfio que fecunda a vingança em seu ventre,  que concebida, há de nascer a todo custo. Há de crescer em todo o tempo. Há de vingar em sua essência, silenciosamente. Vingou o segredo. Expôs uma inverdade agora nua e vulnerável. Deixou-se captar por lentes. Tornou-se refém e como refém, o que poderia esperar entre grades? Fora esquecido, abandonado. Existiu um dia de fato? Foram sonhos que evadiram do mundo onírico e fingiram realidade. Despertou. Fluiu como uma fumaça tênue, porém vigorosa. Uma fragilidade ousada e caprichosa. É um quarto que te esconde? Um batom que contraria o bom senso? Um recinto que nina seus pesadelos e humilha em uma proporção absurda? Ou o quarto não te cabe mais, o batom está fora de alcance e o recinto, esquecido foi. A retina revela a imagem que gravou. Desejou ser a porta, o batom, o piso frio. Nem um, nem aquele, nem o outro.

Frio e requintado, trabalho artesanal, madeira especial, e chaves, muitas delas a garantir que não fujas. Pode por acaso fugir uma casa vazia? Uma casa cheia há de fugir quando queira. Parece-lhe a mesma de dias idos?  Fugiu e roubou-lhe o conforto da boa acolhida? Roubou-lhe a segurança do teu chão? Roubou-lhe a familiaridade e o calor diário em noites frias  e a boa brisa em dias quentes? Não a reconhece em seus contornos e mobília? Não te acolhe o teu quarto? Fria a  tua cama. Frio o teu chão. Vazio te conjuga.

O silêncio não faz o efeito que se deseja. Ausentar-se, tão pouco. Evoluíram-se todas as coisas, imaginas, mas nada evoluiu como pensas. Regressou no tempo. Um portal te encontrou. Por ele entrou e de costas caminhas. Caranguejo para trás e para os lados esconde e reaparece. Tão previsível e dono do seu mover, seu desengano rabiscas na areia e ondas livres, em pleno exercício de desfazer aleatoriamente, apagam seus traços.

Não me esqueça é um grito. Tudo faz para ficar na memória. O que desejo? Sentir-me acolhido e quanto mais me sinto, mais desejo punir. Ou acordas pela manhã refeito, feliz porque se fora a noite má e o dia, pequeno seria para conjugar o desprezo?  Pensei virar a mesa. Vai embora prenda sua. Presa sua, carangueja, volta atrás, anda para os lados, não sabe o que fazer. Possui a resposta quem sequer, formulou uma pergunta? Indaga meu ser que sabe onde procurá-la, mas não importa mais. 

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Liberdade, asas de mim.


Por Vitalina de Assis.






Debulhar meus sentimentos trará minha verdade de forma clara e se posso dizer, absoluta. Não. Não serei tão soberana em minha análise, mesmo porque, ninguém poderá de fato ter uma verdade absoluta sobre o que quer que seja, haja vista sermos passíveis de erros em nossa análise, entretanto, se já me compreendo, aceito e reconheço-me, posso me sentir feliz neste processo.

Desejo fazer menção a uma lei que foi promulgada em 28 de setembro de 1871, a Lei do Ventre Livre que considerava livre, todos os filhos de mulheres escravas nascidos a partir da data da lei, ou seja, seus filhos não carregariam sobre os ombros o jugo da escravidão, seriam livres. Acredito que cada um de nós, em determinada época de nossas vidas, deveríamos promulgar semelhante lei sobre nossos sentimentos e liberta-los de todo o peso, enfado e desengano. Quantas e quantas vezes terão os sentimentos, o encargo sobre humano de carregar sobre seus ombros, um jugo tão desleal e impróprio?

Meio século de existência parece-me pouco para sobrecarregá-los desta forma. A incompreensão e o desconhecimento sobre meu eu mantiveram-me escrava e a eles também, mas mergulhar densamente a procura da minha verdade trouxe-me a liberdade. Disse Jesus: “Conhecereis a verdade e a verdade, vos libertará”.  Que conhecimento é este e que verdade é a chave para a minha libertação? Toda verdade pessoal é empírica, e não será necessariamente a verdade do outro, uma vez que somos seres únicos, assimilamos distintamente e carregamos vivências que moldaram nosso caráter e nossa forma de ver e experienciar. Somos seres tão complexos e ao mesmo tempo tão simples. Vamos aprendendo no dia a dia, no cansaço ou na leveza que a vida nos impõe e o cansaço está para a leveza, de quem ousa despojar-se. Quanto mais me pesam os ombros, mas tenho  necessidade de aliviar a carga.

Promulgo e assino esta lei que vai outorgar-me liberdade e o desapegar que necessito, para seguir livre de peso excedente e totalmente consciente das minhas reais necessidades, ou seja,  visualizo com uma clareza gigantesca todo este universo (entenda por situações criadas na minha mente e toda esta confusão emocional) que me envolveu. 

Nada é absolutamente novo em uma relação, pois em um relacionamento,  não se trata do outro,  se trata sempre do "eu", ou seja, de como "eu" me relaciono inicialmente comigo, como vou espelhar isto no outro e o valor das minhas expectativas. Percebo que um relacionamento é uma oportunidade ímpar de se conhecer, de agregar valores e principalmente o reconhecimento de nosso real valor. Como aceitamos uma relação, como administramos e quanto estamos dispostos a lutar por ela, se empenhar, dá o grau de sua relevância. Entretanto, analisando um pouco mais, percebo que lutar ou não lutar não desvaloriza aquilo que deixamos. Tudo há de ter o seu tempo, mas tudo há de ter também sua consistência.

O valor está na prática de um comportamento recorrente, e aqui sim, cabe uma análise rigorosa e sincera. Qual é a natureza do meu espírito? O que prioriza meu ir e vir? Como me comporto quando a insatisfação, comodismo ou uma preguiça extrema de viver, se me apresentam?

Preciso sair de mim e enquanto ausente ser expectadora, assistir-me, enxergar o meu mover sem estar envolvida.


Estou consciente de que estou consciente e estando assim tão autônoma e fora de mim, posso trocar a fala, sentimentos e  atitudes como se troca de roupa, um exercício tão comum e necessário. Asas de mim, liberdade.

sábado, 25 de março de 2017

Saudade.








Saudade deveria ser sinônimo de reconhecimento. Reconhecer um tempo ímpar de experiências e vivências que, mesmo cotidianas e corriqueiras, mostrarão a seu tempo, seu real valor. Agradecida por cada dia e minutos em que meu ser foi capaz de registrar na alma e no sentimento, aquilo que muitas vezes, não registramos em nosso olhar.
Escrevi isto no dia 21/03/17, uma noite antes da morte da minha querida e especial amiga. Ana Maria Cruz é uma dessas amizades que são sementes que, generosamente, o destino semeia em nossa estrada muitas vezes ressequida, pela falta de um genuíno amor que ultrapassa laços familiares.
Ela chegou em uma manhã no Sac da Regional Pampulha, para solicitar o corte de uma árvore e eu tive o privilégio de atendê-la. Feita a solicitação, conversamos um pouco, ela falou da morte recente do marido e chorou. Eu me levantei, nos abraçamos e sem que nos déssemos conta, fomos "semeadas", uma na outra. 
Sua cordialidade sincera foi algo que eu desconhecia, convidou-me para ir à sua casa tomar um café, me deu seu endereço e telefone e eu imprimi um dos meus textos e lhe entreguei. Nos despedimos.
Como toda semente que lançamos na terra tem o seu tempo certo para germinar e se fazer presente na superfície, assim foi conosco. Um ano se passara sem o menor contato e em um belo sábado, sozinha na minha casa e com uma vontade de dar um passeio, lembrei-me de Ana Maria. 
Mas onde foi que eu guardei seu telefone e endereço? Na agenda do ano que já havia passado. Fucei nos meus guardados e lá estava ela e na última página, o que eu buscava. Com a cara de pau que Deus me deu, depois de vários ligo - não ligo - venceu o ligo. Do outro lado uma voz carinhosa respondeu alô e quando eu disse quem era, lá estava o convite imperativo, você está sozinha em casa? Então vem tomar café comigo, a Darci minha cunhada, está aqui e quero que você a conheça, não fica sozinha não. Menininha vem pra cá, tô te esperando.
Fui. Tomamos café com pão de queijo, conversamos, Darci levantou-se para ir embora, ía aproveitar a deixa e a Ana não deixou que eu fosse com um óbvio argumento: "pra quê que você vai pra casa pra ficar sozinha? Eu também vou ficar sozinha se você for embora, então vamos conversar mais e você dorme aqui, e amanhã saímos para almoçar ou eu vou fazer um almoço bem gostoso pra gente".
Depois deste dia, uma vez por semana, eu saía do trabalho, passava na padaria do seu compadre que ficava na esquina, comprava o pão bem torradinho e o café já estava cheirando na rua.
Em Julho de 2016, minha amiga sofreu um AVC, foi guerreira e continuou lutando pela vida, até que hoje, dia 22/03/17 ela nos deixou. Eu estava há três semanas com ela, cuidando para que sua prima Olga pudesse descansar um pouco e sem mais nem menos, após um café e um almoço maravilhoso, ela se foi e me deixou com um vazio imenso no coração. Vi no seu olhar a vida esvaindo e não pude acreditar no que fingia negar meu olhar.
Oi menininha, você está boa? Nunca mais ouvirei a sua voz, não enquanto eu ainda estiver por aqui. Sei que o Senhor recolheu mais uma flor, e sei também que ela semeou jardins imensos e por muitas e muitas décadas ela ainda será lembrada, por sua alegria, garra e extrema generosidade. Fez amigos como eu jamais imaginei que alguém pudesse fazer e conservar e se a vida lhe negou filhos, ..
“Canta alegremente, ó estéril, que não deste à luz; rompe em cântico, e exclama com alegria, tu que não tiveste dores de parto; porque mais são os filhos da mulher solitária, do que os filhos da casada, diz o SENHOR”.
Descansa em paz minha linda. Aprendi muito com você. Por toda a minha vida, vou te amar. SAUDADES!


domingo, 19 de março de 2017

Arvoreando.


Por Vitalina de Assis.





Que bom que meu olhar pôde captar o crescimento da árvore. Árvores realmente me encantam e em dias idos, de sofrimento intenso me alimentava de sua força, firmeza e determinação, pois voltavam sempre frondosas e com muitas histórias para contar. E se assim podiam... perder folhas, perder flores, secar e novas folhas, novas flores, nova sombra desenhar, pensava... por quê não sentir sua sabedoria e imitar seu ciclo?

Pedi o plantio de algumas na minha rua, sofri com elas e com as formigas cortadeiras que pareciam possuir prazer em picotar suas juvenis e recém-chegadas folhas. Não ficava uma para contar história. Formigas cortadeiras já passaram por meu jardim. Evidenciava uma perda aqui e ali sem a compreensão, de que necessário seria perder, para ganhar em outro tempo, em outros dias, em nova maturidade. Também reguei, incontáveis vezes, suas raízes e aonde chegava a mangueira, ia eu, e aonde mangueira não ia, caminhava eu com o balde.

Segurei a base de um tronco com pedras, implorei a um estranho que me ajudasse a escorar uma delas e no dia seguinte, lá estava uma pesada galha, já com flores, caída na calçada. Mobilizei um colega, mandei fotos, solicitei uma intervenção e cortaram a galha, aprumaram a arvorezinha.

Hoje converso com elas, (um elogio, um obrigada por existir) toco em seus troncos, acho graça de minhas angústias enquanto cresciam. Aprendi com elas que saber quem somos e a que viemos, faz toda a diferença. (Sinceramente? Penso que evadi desta aula e por mais que eu pense, sinta ou invente para mim um propósito, sei que estou em falta com minhas entranhas, com o que anda na minha alma, com sentimentos que ainda não elaborei.)

Estava agora no banho, naquele momento único em que podemos pensar em quem somos, no que fazemos e aonde ainda não chegamos. Pensei com a minha pele, (já que em minha nudez, não havia botões para pensar. Acredite, este não é um bom momento para análise. A nudez te expõe sem piedade. Fica o eu e a pele descoberta.) que na minha vida, ao longo de meu meio século e alguns anos de existência, não sabia direito quem eu era, o que eu fiz e qual o real propósito da minha existência.

Formei-me em Letras, não dou aulas, sou escritora e meus livros presos dentro de mim estão, estou só e sem emprego (é, estou engrossando as estatísticas ) e no meu mais puro estado otimista, me questionei: - e agora?

Banho tomado voltei ao quarto, mirei-me no espelho, passo protetor solar? E esta mancha no rosto que insisto em ver mais clara ou finjo não enxergar e ela insiste em ser.  Incomoda-me sua firmeza. O que fazer? Emagreci um pouco, pensei nos exercícios que postei no Face,  no abdômen  que ando prensando e abrindo as costelas, que segundo minha filha, não se abrem se não há ar nos pulmões. Vou rever esta técnica, em algum detalhe, me equivoco.

O Facebook chamou minha atenção – “Soninha comentou seu vídeo”. Pensei: vai malhar também. Ela não viu este vídeo ou não se importou. De qual vídeo se posiciona? Ah! As árvores! Tão centrada no meu umbigo, tinha me esquecido deste vídeo incrível. Tiro o foco de mim mesma, penso nas árvores e passo a responder minha amiga. E não é que apenas comentar, me emociona?

Mergulho em mim, minhas galhas se movem, há uma brisa que incomoda, (brisas refrescam, mas esta me incomoda) sinto muitas folhas picotadas a espalhar-se e nenhuma formiga cortadeira ao alcance de meus olhos. Desejei ser árvore com a sua certeza. Me descobri fragilidade das incertezas, galha cansada, rendida ao chão.

Outra brisa, outro momento, outro pensamento. Não é assim que acontece?

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Língua insensata língua.


Por Vitalina de Assis.







Desejo retratar-me,  retirar palavras ditas em momentos de insensatez como se fosse possível recolher todas elas e lança-las no esquecimento. Reconheço a impossibilidade, mas venho aqui, diante do Universo retratar-me, pedir desculpas, tentar desdizer o que dito foi.
Não desejo cultivar a raiva, plantar sentimentos contraditórios, regar desamores. Quem lucraria com tal colheita? Seria possível nesta vida, esquecer duras palavras, impedir que continuem a doer em nossa memória ainda que pareçam possuir um requintado gosto para angústias e dissabores? Não creio que todas as pessoas sejam assim, (algumas ruminam a raiva a vida inteira e se mil vidas tivessem, ainda seria muito pouco para perdoar) pois a percepção é única e a acolhida passa pelos filtros pessoais de cada existência e evoluir como pessoa, há de ter como prêmio um equilíbrio cada vez mais apurado.
O Salmista suplicou: “Põe, ó Senhor, uma guarda à minha boca; vigia a porta dos meus lábios!”. Que gigantesca responsabilidade estamos jogando no colo de Deus? A nossa mais pura e santa omissão - que Deus me cale se não posso fechar a boca, é isto mesmo? Na verdade estes guardas à porta de nossos lábios deveriam ser e são, acredite, parte do nosso regimento e à espera da nossa voz de comando. Entretanto, ao invés de ordenarmos silêncio abrimos a boca lançamos a palavra ao vento e magicamente tentamos resgata-las, horas ou dias e quem sabe, infinitas vidas depois. Não voltam e quando regressam não o fazem solitárias, desvalidas, queixosas.  Voltam carregadas ao extremo e o efeito bumerangue, após descrever a curva na orelha do outro, retorna pesado às mãos do lançador.
Fomos feitos à imagem e semelhança de Deus, correto? Então devemos estar cientes de que, tal como Deus, nossas palavras nunca serão meras palavras, elas possuem poder. “Assim será a minha palavra, que sair da minha boca; ela não voltará para mim vazia, antes fará o que me apraz, e prosperará naquilo para que a enviei”.
Você consegue compreender o peso desta afirmativa bíblica? Deus é amor em toda a sua plenitude, em um nível que jamais seremos capazes de igualar, ou até mesmo compreender. De sua palavra proferida, não há o que temer, ela vem sobre nós e só volta para Deus após prosperar, cumprir seu desígnio e não há outro Ser, no universo inteiro, que nos queira tão bem. Possuidores deste mesmo poder sobre nossas próprias palavras, há de se ter um cuidado extremo ao proferi-las. Melhor calar, vigiar a boca. Vigiar. O que falamos vai voltar para nós e não voltará sem ônus, então devemos ser ponderados e justos. O salmista, conhecedor do poder de suas palavras solicitou ajuda aos céus para não proferir o mal. Como é fácil criticar, tirar valores, ferir o orgulho de quem nos ouve. Difícil é conferir virtudes, abençoar, exercer a generosidade no falar. Medir o efeito - ouvir-se primeiro, antes de lançar uma palavra da qual não teremos controle algum, deveria ser nosso exercício diário.
O que meus lábios proferiram hoje? Palavras que impulsionam e trazem alegrias, ou palavras néscias e desvirtuadoras? Que minha consciência, generosidade e bom senso sejam os guardas, às portas dos meus lábios. Se loucamente já proferi o que não deveria – perdão, perdoa-me, perdoo-me.



quarta-feira, 6 de julho de 2016

Me voilà! Aqui estou eu!





Me voilà! Aqui estou eu!

Por Vitalina de Assis.







Como já passei dos quarenta e parece-me que os cinquenta, possuem outros tons, então poeticamente, reformulo um conceito do qual nos apropriamos: a vida não começa aos quarenta, como dizem por aí. Nosso segundo turno começa a partir do momento em que compreendo a generosidade do viver, seja em que idade for. Entretanto, reconheço ser verdade que aos cinquenta, a leveza do existir exige que se recolha a âncora e que ao sabor de suaves ventos, nossa embarcação deseja bailar. Danças comigo?

E exatamente como o segundo turno da nossa jornada de trabalho, passa tão rapidamente que mal temos tempo para um lanchinho e, quando assustamos, já se encerrou o expediente, foi-se o dia.  Então deixamos a mesa meio bagunçada, porque tem dias em que não vale a pena ficar nem mais um segundo, entre papéis e pessoas que ficam mais tempo conosco, do que as queridas do nosso núcleo familiar. Atentar para o segundo turno de nossa existência é estar consciente de que a vida espera maior desenvoltura, respeito e a habilidade para se reinventar. 

Acabei de assistir o filme, "Dança comigo?" E devo confessar uma coisa, desta vez doeu! Sempre achei este filme maravilhoso. Richard Gere um homem perfeito, delícia para mulher nenhuma colocar defeito e seus passos para descobrir na dança que a Vida, por mais perfeita ou imperfeita que seja, não precisa estar engessada até que a morte nos separe amém, é inspirador.
Como? Foi a pergunta da esposa para o detetive: - Como uma pessoa que há vinte anos faz todos os dias as mesmas coisas, sente a necessidade de fazer algo diferente? E pensei naquele desconforto, uma insatisfação interior quase como se fosse um feto sendo gerado em nossas entranhas, que não compreendemos a que veio ou aonde quer nos levar. Como lidar com isto? 

[...] A alma tem d’estar sobressaltada pra o nosso barro se sentir viver.[...]
[...] E quem quiser a alma sossegada fuja do mundo e deixe-se morrer.[...]
                                  (Amar ou odiar – Fausto Guedes Teixeira)

É isto! O segundo turno de nossa  existência  requer mais cuidado, requer mudanças de hábitos arraigados, requer jogo de cintura, requer desconforto. Requer maior grau de paciência, mais doçura no olhar, mais compreensão na alma e decididamente, mais “des-propriedade”, aquele total descompromisso com a pose do outro, com as coisas do outro, seja ele parceiro ou filhos.  "Ninguém é de ninguém, na vida tudo passa", cantou o poeta.  Chegou o momento de alforriar coisas e pessoas, alforriar ideias e conceitos, alforriar roupas e sapatos, alforriar este molde de vida, no qual não se cabe mais, porque você cresceu! Crescer causa dor, desapegar é doído. Dói compreender que nu viemos ao mundo e que despidos, de tudo e de todos, sairemos dele. 

"Alma sossegada? Fuja do mundo e deixe-se morrer".  
 
Quando o que mais nos importa, é ausentar-se de todos e do mundo, recolher-se a dias e momentos que nos aprisionam em um espaço físico tão restrito no qual sequer, podemos alongar músculos e ideias e ali ficamos hibernando em pleno verão, é hora de acordarmos para a vida generosa que ainda nos tem, em caminhos desafiadores.

Quanto ao filme: por que se casam? Por que as pessoas não querem ficar sozinhas? Pergunta e revela a esposa, para o detetive: “porque precisamos de espectadores para a nossa vida, alguém que nos assista, compreenda, nos apoie, se importe e que esteja presente”. Aí doeu! Tenso! Naquele dia e momento específico, doeu. 

Hoje meu olhar otimizou, enxergo contornos que a debilidade da visão proporciona. Quanto mais se precisa de lentes para melhor enxergar, mais acurada fica nossa forma de ver e perceber o mundo. Os espectadores para a nossa vida, alguém que nos assista, compreenda, nos apoie, se importe e que esteja presente, não é, necessariamente, a condição de estar pareado a  alguém. Nem sempre trata-se de um outro. 

Nosso segundo turno  é o exato momento em que nos tornamos espectador, aquele que assiste, compreende, apoia, se importa e acima de tudo está presente com generosidade e carinho. O momento em que “eu” deixa de ser egoísmo e passa a ser prioridade. Me voilà! Aqui estou eu!

No "segundo turno" isto importa bem mais, mas estupidamente, percebemos bem menos.

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Sente





Sente

Por Vitalina de Assis. 

 


Pareceu-me uma arte.
Puramente obra de arte
Pareceu-me obra de artífice
Sem igual poder entre homens


Que humanas mãos e falhas poderiam
Em séculos de existência
Reproduzir tal feito?
Criar tamanha arte? 


Sorriu minh'alma
Achou graça da falibilidade
De artífice que vive aqui ou ali
Que hoje respira
E amanhã termina
Em um sopro
Um suspiro
Folha seca
Varrida ao vento


Evoquei
Se tuas obras ficam
Podem por capricho do destino
Extinguirem-se também


Mas este poder
que a tudo desenha
Que às ondas dá vida
Que aos céus
Pinta cores sem igual
A este Poder
Reverencio


Passa o mar
Passam as cores
Cala o vento
Cessam os amores
Não filma ninguém


O Poder?
Ah! 

Este Poder?
Não se explica
Sente.


quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Mudança.





Por Vitalina de Assis









O que dizer de sua vida?
Teria tamanha sequidão
histórias a contar?

Mirei o olhar em dias idos
Ouvi vozes perdidas no tempo
Vento, sussurro, silêncio

Se ninhos abrigastes
Em teus galhos
Cantou a  vida

Hoje muda melodia
Abandono é sua sina
E rente a ti
Canta a morte

Tua quietude
Minha alma inquietas
Vejo guerreira
Tua força extinguiu

Extingui nossos dias
Se esvai nossa força
Imperceptível caminha a morte ao nosso lado
Perceptível mudança pareia 

Viver
Dia após dia
É recompensa maior

E se o ceifeiro
Se apressa a colher o que sente restar
Nossas fartas mãos
gentilmente a Deus agradecem

Se nossos galhos a estalar estão
Falta-nos o tempo
e apurado olhar

Nossos galhos também secam

Nossas folhas ficam pelo chão

E os frutos? Deleites na pele? Arrepios?

Do cheiro e sabor
Doce lembrança
Toque sutil
Assombra dias corridos

Vejo guerreira
Tua força mutou
Se em viçosa lida
Sombra e frutos repartias
Em sua honrada despedida
Minha vida 
inquietude inconformada
Sente o vento 
suas folhas caem
não sopra mais

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Amor?

 
Amor?
 
 







Como aroma incensário,
perfuma recônditos
e se...
possuis a felicidade de ir além
incendeia a alma
que por segundos
finge tocar a eternidade

mas

se esvai

logo.


Eternidade que se preze,
intocável é à nossa efemeridade.

No silêncio, os dias passam e com ele, o tempo.


terça-feira, 15 de setembro de 2015

Avidez.


Avidez

Por Vitalina de Assis.






Sob escaldante sol
sua clara presença
esvoaça ao vento
balança feito rede
vazia
sozinha?
nem tanto
moldura para corpo abraçar
abraçaria

Observasse olhar ao longe
juraria em seu regaço
um corpo quente abrigar
e abrigaria por certo
e balançaria por certo
e o vazio
a sentir-se completude
transbordaria

Meus olhos
ávidos
de observar a claridade
que balança feito rede
emoldura o corpo

e ...

minha alma
carícia plena
desfrutava

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Mona, atualiza Monaliza.



Por Vitalina de Assis.


Milhares de Monas
cansadas dos pinceis a pintar singeleza
ousaram dizer:
basta Leonardo!

desejam tatuar no corpo
sinais que as distingam
marcar o rosto
e tímido sorriso
com cores da modernidade
piercing a sentir aromas
outros
no centro do ser
cordão há muito cortado
reivindicam

” libertas quae sera tamem”

jamais será tardia
a liberdade que se deseja
e enquanto sopra a vida
instigas a autonomia do ser.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Faces do olhar


Por Vitalina de Assis.










"Maturidade é ter a capacidade de viver em paz com o que não se pode mudar". (Autor desconhecido)

Talvez muito, desta suposta "maturidade" seja mera acomodação.  O "viver em paz", pode ser uma ferida já cauterizada pelo tempo e lida, um incômodo que  venceu-nos, um passe a régua, uma aderência que somou.  Sendo assim, escolho  o  que bem definiu Fausto Guedes, em seu poema: Amar ou odiar.


[...] A alma tem d’estar sobressaltada
P’ra o nosso barro se sentir viver.[...]
[...] E quem quiser a alma sossegada
Fuja do mundo e deixe-se morrer.[...]


Maturidade para mim está para ânsias, sobressaltos, expectativas. Um rejuvenescer de ideias e sentimentos quando tudo ao redor, parece ressequir. Não pode ser a maturidade um convite para um outono sem fim, um amarelar sem consequências.  Se secam  os sonhos de mudanças, hão de florir e frutificar fartamente na imaturidade da existência. Tudo é transitório e temporário e nada é exatamente o que parece ser. Por ângulos diversos  enxerga-se diferentemente o igual de todos os dias, o que na  realidade, igualdade alguma possui.


Há novidade debaixo do sol. O ar que agora enche  meus pulmões e que expiro em segundos, desconhecido é ao ar que inspiro. Isto é viver e viver é uma arte transitória. Quem considera possuir uma vida inteira para realizar seus projetos, pode perceber no meio ou no início de sua travessia que o tempo, nem sempre  parceiro, segue  a passos largos, impossível acompanhá-lo e, embora por um tempo finja mover-se  ante  nossas retinas, basta apenas uma curva e saiu de foco e o eu idealizador, saiu de cena. 

Viver em paz com o que, teoricamente, não se pode mudar, é viver o óbvio, é aceitar passivamente a intervenção que dói, enquanto fingimos não doer, sem contudo ignorar a dor. Dói. Uma dor anestesiada com ares de necessário e necessário, seria? Sentir, aceitar, abrigar intimamente, esconder? Seria  balançar na rede, que próxima ao chão, sequer imagina-se gangorra? Não sabe o que é sentir o  vento, lançar-se cada vez mais alto, imaginar voar. Na rede, levantar o olhar  é atentar para a superfície e observar suas saliências, cuidar para não cair. Enxerga-se o horizonte quem somente olha para o chão? Olhar e enxergar, olhar e apenas ver, maturidade da visão de quem aprendeu a discernir entre um e outro e, soube optar.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Percebendo-se.


Por Vitalina de Assis.


Viver e a nossa concepção de vida, é um exercício individual em meio a coletividade e  a medida em que a vida  nos ensina e vivenciamos este aprendizado, vamos mudando nossos conceitos, abrindo mão disto ou daquilo, apropriando de novos valores, mudando nossa conduta, pensamentos e sentir. O que era essencial torna-se muitas vezes supérfluo, e o que achávamos inalcançável, bate a nossa porta ... deixamos entrar, percebemos mudanças, somos a mudança.

É aquele exercício contínuo de tentar manter em ordem o nosso entorno, para que o nosso interior fique organizado também. Existem dias em que perco o foco na organização, vou largando uma coisa aqui, outra ali, relaxo. Fora de mim, observo este comportamento questionando-me... por que? Penso que pode ser a falta de alguém ou algo que me exija ordem, entretanto percebo ser isto, um estar alheia a mim mesma minimizando minha importância. Paro, centralizo-me e aí consigo me reorganizar. Este é um exercício diário, semanal, mensal, uma vida inteira. 

Inúmeras vezes deixamos de  mirar-nos nos espelhos do sentir, não damos ou exageramos a atenção a determinadas situações e isto, longe de  fazer-nos bem, coloca-nos a deriva de nós mesmos, perdemos o foco, ficamos desorientados e vamos sendo arrastados pela correnteza que impera e convenhamos, ninguém gosta de ser arrastado desta forma. Correntezas são um espetáculo a parte e algumas vezes, fatal. Melhor observar, deixar que siga seu curso permitindo que carregue nossas angústias, este sentir que tanto incomoda e que possui seu "time". Prolongá-lo em um abraço que já perdeu seu calor e propósito, diminui consideravelmente nossa energia. Daí a dificuldade em ordenar o que caótico está.

Viver também é ter. Ter tempo para si, ter tempo para se permitir, ter tempo para puxar as rédeas, ter tempo para mudar o rumo do que cansou o pensamento e viciou  princípios. Ter tempo para voltar atrás, não feito caranguejo que não sabe a que volta. Voltar, muitas vezes é um reiniciar ao contrário. Nada justifica o medo de recomeçar e dos escombros, talvez construir algo novo ou ainda, conjugar o desapego, sacudir a poeira, seguir sem culpa. Ter tempo para possuir coisas sem amontoá-las desatinadamente como degraus de uma escada, que não leva a lugar algum. Possuir não deveria ser um fim em si e embora, orgulhosamente caracterize propriedade, do que é mesmo, que somos "senhor"?

Louco! esta noite te pedirão a tua alma;
e o que tens preparado, para quem será?”

Nada levaremos deste mundo, a não ser o que conseguimos interiorizar e que melhorou-nos como pessoas. Por aqui, ficam as nossas vestes, nosso pó, nossa máscara.


sexta-feira, 16 de maio de 2014

O Fantástico mundo de Bobby, ou seria o meu?







Há momentos em que a vida  coloca-nos literalmente contra a parede e aí, ou peitamos de frente ou continuamos vivendo os dias com uma insatisfação crescente. Em outros  e talvez  por este esteja aguardando a maioria, a vida  toma-nos pelas mãos e coloca-nos gentilmente em um novo caminho. Fato é que nada muda no nosso exterior que não tenha sido elaborado interiormente. Mudanças só ocorrem efetivamente de dentro para fora, nunca ao contrário. Podemos mudar o estilo, encenar uma mudança, modificar nossa entonação de voz, corte, cor de cabelo, mudar  nosso corpo de lugar como se muda uma mobília, entretanto bastará um click e a  nossa velha natureza ressurgirá faceira e desafiadora. Mudar é um processo trabalhoso, algumas vezes doloroso, contudo aprendemos (ignorar esta aprendizagem é um erro) que a leveza e um olhar otimista, são ferramentas poderosas para esta empreitada.

Lembra-se do dia em que aprendeu a dar cambalhotas? Bastava uma superfície mais lisa e macia e lá estávamos de joelhos, reclinando o pescoço e segundos depois, assentados arteiramente do outro lado. Semelhante alegria em estrelas executadas ou subindo feito aranha pelos batentes das portas, era pura magia. Um leve descuido do olhar controlador e nosso mundo cambalhotava estreladamente ou parecia flutuar. Crescemos e estas peripécias se mudam do nosso cotidiano infantil, a leveza ganha peso e  o olhar,  perde os ares de otimismo.  Então vem a  “vida”, com sua maneira individual e peculiar a conduzir-nos ao crescimento. Inventa seus momentos “dejavú” e logo estamos nós às voltas com tais peripécias, desta vez nada lúdicas, pois nossa infância de brincadeiras ficou pelos meandros que a vida nos inventou. Entrelinhas,  a vida enfatiza que a felicidade está inclusa nas cambalhotas e nas reviravoltas a que somos submetidos em dias atuais. Estão fundamentadas no bem estar da nossa alma e isto é o que realmente importa ou faz a diferença.

A leveza e olhar otimista asseguram um retorno saudável a memórias impregnadas de bons sentimentos e à certeza de que tudo que nos oprime, pode converter-se em ludicidades. Regressamos convictos de que cambalhotar, estrelar e flutuar são verbos a conjugar em qualquer fase ou circunstâncias de nossas vidas.

Quando a alma anda insatisfeita e o eu preocupadíssimo, já iniciou-se o processo: o descruzar dos braços, as mãos ansiosas para reter o novo e os pés principiando uma nova rota, tira-nos da mesmice que aprisiona. É hora de passear pelo “fantástico mundo de Bobby” ou melhor, reencontrar o nosso mundo lúdico e brincar com as circunstâncias. Você ainda se lembra de como se faz isto?

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Uma carta de amor para você, Vitalina.







Uma  carta de amor para você, Vitalina.


Vitalina,

quero dizer-lhe o quanto te amo e ainda que, em alguns momentos, se sinta exatamente como a personagem da "Maré", do NX Zero e se pergunte o tempo todo: "o que é que tô fazendo aqui"? E em dueto cante: "a vida que levo não é mesma que planejei quando era feliz". E daí??? Felicidade é algo muito subjetivo e seus momentos, fragmentos de um todo. E o "todo", é o que realmente importa. 

O "todo" é agridoce e tu sabes distinguir um sabor do outro e compreendes, que juntos, comportam a essência "viver", por isto devo parabenizá-la e admirar sua postura, embora algumas vezes, você não se mire com um olhar gentil. Somos tão propensos a uma ótica rígida no que tange à nossa pessoa, que precisamos dar um tempo e relaxar nossos nervos ópticos. 

Na terça ouvi um pastor dizer o seguinte: "Tudo quanto, pois, quereis que os homens vos façam, assim fazei-o vós também a eles; porque esta é a lei e os profetas" (Mt. 7:12). É a Regra Áurea, regra de ouro do Cristianismo, a lei suprema da semeadura: o que plantamos, invariavelmente vamos colher. 

Mas desejo furtar esta regra áurea da visão "macro", de conjuntos de elementos interconectados, amplo e a relação entre eles, para a visão "micro", no sentido de elementar, único, particular, um olhar, me perdoem, meio egocêntrico. Se partirmos do pressuposto de que uma semente apenas, é capaz de produzir uma floresta, não avalio ser egocentrismo focar este olhar para nós mesmos. Se desejo realizar-me como pessoa, alcançar meus objetivos de forma a ser um canal abençoador não só para a minha família ou amigos, mas fazer uma diferença positiva em todos os níveis, devo portar-me com olhar, gestos e atitudes generosas primeiramente para comigo. Isto significa ser grata a Deus por ser quem realmente sou - possuidora de qualidades e defeitos, uma semente capaz de produzir uma floresta. "Amar o próximo como a si mesmo",(em âmbito mais limitado) deveria ser outra regra áurea, mas como amar o próximo, se não me amo, se não me admiro, se não exerço compaixão sobre  minha própria vida? Muitas vezes nos gerenciamos com um rigor tão acirrado, que a vida se torna um fardo pesado sobre nossos ombros e isto nos impede de maximizarmos nosso potencial e ficamos aquém,do que planejou Deus para as nossas vidas, ou ainda sequer esbarramos em nossas expectativas. Deixamos a vida e o mundo, com uma improdutividade doída. 

Hoje contaram-me que um pai de família de 70 anos, bem sucedido profissionalmente, suicidou-se em um dos cômodos de sua casa. Pergunto-lhes: Não havia este homem, em dias idos, matado sua própria vida? A consumação do suicídio nada mais é do que a constatação da severidade do olhar para si próprio. 

Tudo quanto quero que a Vitalina faça por mim, farei também à ela. Cuidarei com zelo de sua saúde física, cuidarei com amor de sua saúde emocional, cuidarei com bons pensamentos de seu bem estar mental. Tudo quanto quero: saúde, amor, bem estar mental e emocional, faço-lhe também, porque esta é a lei e os profetas. "Lei (do verbo latino ligare, que significa "aquilo que liga", ou legere, que significa "aquilo que se lê") O que ligo, ato a mim, é lei, a sentença a qual me submeto. O que falo, dito, a meu respeito, são palavras (profecias, enquanto profeta, somos todos profetas) a serem lidas, e sou eu quem as redijo (profetizo), confiro-lhes enredo (poder), um sentido. "Esta é a lei e os profetas". 

Procedendo com gentileza e amor para comigo, "eu", Vitalina,  retribuo na mesma medida. Assim, ao sair da visão micro para a visão macro, torno-me um instrumento (pessoa) capaz de operar mudanças interiores, sem as quais torna-se impossível mudar exteriormente.