Por Vitalina de Assis.
Que bom que meu olhar pôde captar o crescimento da árvore. Árvores
realmente me encantam e em dias idos, de sofrimento intenso me alimentava de
sua força, firmeza e determinação, pois voltavam sempre frondosas e com muitas
histórias para contar. E se assim podiam... perder folhas, perder flores, secar
e novas folhas, novas flores, nova sombra desenhar, pensava... por quê não
sentir sua sabedoria e imitar seu ciclo?
Pedi o plantio de algumas na minha rua, sofri com elas e com as formigas
cortadeiras que pareciam possuir prazer em picotar suas juvenis e recém-chegadas folhas. Não ficava uma para contar história. Formigas cortadeiras já
passaram por meu jardim. Evidenciava uma perda aqui e ali sem a compreensão, de
que necessário seria perder, para ganhar em outro tempo, em outros dias, em
nova maturidade. Também reguei, incontáveis vezes, suas raízes e aonde chegava a mangueira, ia eu, e aonde mangueira não ia, caminhava eu com o balde.
Segurei a base de um tronco com pedras, implorei a um estranho que me ajudasse a escorar uma delas e no dia seguinte, lá estava uma pesada galha, já com flores, caída na calçada. Mobilizei um colega, mandei fotos, solicitei uma intervenção e cortaram a galha, aprumaram a arvorezinha.
Hoje converso com elas, (um elogio, um obrigada por existir) toco em
seus troncos, acho graça de minhas angústias enquanto cresciam. Aprendi com
elas que saber quem somos e a que viemos, faz toda a diferença. (Sinceramente?
Penso que evadi desta aula e por mais que eu pense, sinta ou invente para mim
um propósito, sei que estou em falta com minhas entranhas, com o que anda na
minha alma, com sentimentos que ainda não elaborei.)
Estava agora no banho, naquele momento único em que podemos pensar em
quem somos, no que fazemos e aonde ainda não chegamos. Pensei com a minha pele,
(já que em minha nudez, não havia botões para pensar. Acredite, este não é um
bom momento para análise. A nudez te expõe sem piedade. Fica o eu e a pele
descoberta.) que na minha vida, ao longo de meu meio século e alguns anos de existência, não sabia direito quem eu era, o que eu fiz e qual o real propósito da
minha existência.
Formei-me em Letras, não dou aulas, sou escritora e meus livros presos
dentro de mim estão, estou só e sem emprego (é, estou engrossando as
estatísticas ) e no meu mais puro estado otimista, me questionei: - e agora?
Banho tomado voltei ao quarto, mirei-me no espelho, passo protetor solar? E esta mancha no rosto que insisto em ver mais clara ou finjo não enxergar e ela insiste em ser. Incomoda-me sua firmeza. O que fazer? Emagreci um pouco, pensei nos exercícios que postei no Face, no abdômen que ando prensando e abrindo as costelas, que segundo minha filha, não se abrem se não há ar nos pulmões. Vou rever esta técnica, em algum detalhe, me equivoco.
O Facebook chamou minha atenção – “Soninha comentou seu vídeo”. Pensei:
vai malhar também. Ela não viu este vídeo ou não se importou. De qual vídeo se
posiciona? Ah! As árvores! Tão centrada no meu umbigo, tinha me esquecido deste
vídeo incrível. Tiro o foco de mim mesma, penso nas árvores e passo a responder minha
amiga. E não é que apenas comentar, me emociona?
Mergulho em mim, minhas galhas se movem, há uma brisa que incomoda, (brisas refrescam, mas esta me incomoda) sinto muitas folhas picotadas a espalhar-se e nenhuma formiga cortadeira ao alcance de meus olhos. Desejei ser árvore com a sua certeza. Me descobri fragilidade das incertezas, galha cansada, rendida ao chão.
Outra brisa, outro momento, outro pensamento. Não é assim que acontece?






