terça-feira, 15 de setembro de 2015

Avidez.


Avidez

Por Vitalina de Assis.






Sob escaldante sol
sua clara presença
esvoaça ao vento
balança feito rede
vazia
sozinha?
nem tanto
moldura para corpo abraçar
abraçaria

Observasse olhar ao longe
juraria em seu regaço
um corpo quente abrigar
e abrigaria por certo
e balançaria por certo
e o vazio
a sentir-se completude
transbordaria

Meus olhos
ávidos
de observar a claridade
que balança feito rede
emoldura o corpo

e ...

minha alma
carícia plena
desfrutava

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Mona, atualiza Monaliza.



Por Vitalina de Assis.


Milhares de Monas
cansadas dos pinceis a pintar singeleza
ousaram dizer:
basta Leonardo!

desejam tatuar no corpo
sinais que as distingam
marcar o rosto
e tímido sorriso
com cores da modernidade
piercing a sentir aromas
outros
no centro do ser
cordão há muito cortado
reivindicam

” libertas quae sera tamem”

jamais será tardia
a liberdade que se deseja
e enquanto sopra a vida
instigas a autonomia do ser.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Faces do olhar


Por Vitalina de Assis.










"Maturidade é ter a capacidade de viver em paz com o que não se pode mudar". (Autor desconhecido)

Talvez muito, desta suposta "maturidade" seja mera acomodação.  O "viver em paz", pode ser uma ferida já cauterizada pelo tempo e lida, um incômodo que  venceu-nos, um passe a régua, uma aderência que somou.  Sendo assim, escolho  o  que bem definiu Fausto Guedes, em seu poema: Amar ou odiar.


[...] A alma tem d’estar sobressaltada
P’ra o nosso barro se sentir viver.[...]
[...] E quem quiser a alma sossegada
Fuja do mundo e deixe-se morrer.[...]


Maturidade para mim está para ânsias, sobressaltos, expectativas. Um rejuvenescer de ideias e sentimentos quando tudo ao redor, parece ressequir. Não pode ser a maturidade um convite para um outono sem fim, um amarelar sem consequências.  Se secam  os sonhos de mudanças, hão de florir e frutificar fartamente na imaturidade da existência. Tudo é transitório e temporário e nada é exatamente o que parece ser. Por ângulos diversos  enxerga-se diferentemente o igual de todos os dias, o que na  realidade, igualdade alguma possui.


Há novidade debaixo do sol. O ar que agora enche  meus pulmões e que expiro em segundos, desconhecido é ao ar que inspiro. Isto é viver e viver é uma arte transitória. Quem considera possuir uma vida inteira para realizar seus projetos, pode perceber no meio ou no início de sua travessia que o tempo, nem sempre  parceiro, segue  a passos largos, impossível acompanhá-lo e, embora por um tempo finja mover-se  ante  nossas retinas, basta apenas uma curva e saiu de foco e o eu idealizador, saiu de cena. 

Viver em paz com o que, teoricamente, não se pode mudar, é viver o óbvio, é aceitar passivamente a intervenção que dói, enquanto fingimos não doer, sem contudo ignorar a dor. Dói. Uma dor anestesiada com ares de necessário e necessário, seria? Sentir, aceitar, abrigar intimamente, esconder? Seria  balançar na rede, que próxima ao chão, sequer imagina-se gangorra? Não sabe o que é sentir o  vento, lançar-se cada vez mais alto, imaginar voar. Na rede, levantar o olhar  é atentar para a superfície e observar suas saliências, cuidar para não cair. Enxerga-se o horizonte quem somente olha para o chão? Olhar e enxergar, olhar e apenas ver, maturidade da visão de quem aprendeu a discernir entre um e outro e, soube optar.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Percebendo-se.


Por Vitalina de Assis.


Viver e a nossa concepção de vida, é um exercício individual em meio a coletividade e  a medida em que a vida  nos ensina e vivenciamos este aprendizado, vamos mudando nossos conceitos, abrindo mão disto ou daquilo, apropriando de novos valores, mudando nossa conduta, pensamentos e sentir. O que era essencial torna-se muitas vezes supérfluo, e o que achávamos inalcançável, bate a nossa porta ... deixamos entrar, percebemos mudanças, somos a mudança.

É aquele exercício contínuo de tentar manter em ordem o nosso entorno, para que o nosso interior fique organizado também. Existem dias em que perco o foco na organização, vou largando uma coisa aqui, outra ali, relaxo. Fora de mim, observo este comportamento questionando-me... por que? Penso que pode ser a falta de alguém ou algo que me exija ordem, entretanto percebo ser isto, um estar alheia a mim mesma minimizando minha importância. Paro, centralizo-me e aí consigo me reorganizar. Este é um exercício diário, semanal, mensal, uma vida inteira. 

Inúmeras vezes deixamos de  mirar-nos nos espelhos do sentir, não damos ou exageramos a atenção a determinadas situações e isto, longe de  fazer-nos bem, coloca-nos a deriva de nós mesmos, perdemos o foco, ficamos desorientados e vamos sendo arrastados pela correnteza que impera e convenhamos, ninguém gosta de ser arrastado desta forma. Correntezas são um espetáculo a parte e algumas vezes, fatal. Melhor observar, deixar que siga seu curso permitindo que carregue nossas angústias, este sentir que tanto incomoda e que possui seu "time". Prolongá-lo em um abraço que já perdeu seu calor e propósito, diminui consideravelmente nossa energia. Daí a dificuldade em ordenar o que caótico está.

Viver também é ter. Ter tempo para si, ter tempo para se permitir, ter tempo para puxar as rédeas, ter tempo para mudar o rumo do que cansou o pensamento e viciou  princípios. Ter tempo para voltar atrás, não feito caranguejo que não sabe a que volta. Voltar, muitas vezes é um reiniciar ao contrário. Nada justifica o medo de recomeçar e dos escombros, talvez construir algo novo ou ainda, conjugar o desapego, sacudir a poeira, seguir sem culpa. Ter tempo para possuir coisas sem amontoá-las desatinadamente como degraus de uma escada, que não leva a lugar algum. Possuir não deveria ser um fim em si e embora, orgulhosamente caracterize propriedade, do que é mesmo, que somos "senhor"?

Louco! esta noite te pedirão a tua alma;
e o que tens preparado, para quem será?”

Nada levaremos deste mundo, a não ser o que conseguimos interiorizar e que melhorou-nos como pessoas. Por aqui, ficam as nossas vestes, nosso pó, nossa máscara.


sexta-feira, 16 de maio de 2014

O Fantástico mundo de Bobby, ou seria o meu?







Há momentos em que a vida  coloca-nos literalmente contra a parede e aí, ou peitamos de frente ou continuamos vivendo os dias com uma insatisfação crescente. Em outros  e talvez  por este esteja aguardando a maioria, a vida  toma-nos pelas mãos e coloca-nos gentilmente em um novo caminho. Fato é que nada muda no nosso exterior que não tenha sido elaborado interiormente. Mudanças só ocorrem efetivamente de dentro para fora, nunca ao contrário. Podemos mudar o estilo, encenar uma mudança, modificar nossa entonação de voz, corte, cor de cabelo, mudar  nosso corpo de lugar como se muda uma mobília, entretanto bastará um click e a  nossa velha natureza ressurgirá faceira e desafiadora. Mudar é um processo trabalhoso, algumas vezes doloroso, contudo aprendemos (ignorar esta aprendizagem é um erro) que a leveza e um olhar otimista, são ferramentas poderosas para esta empreitada.

Lembra-se do dia em que aprendeu a dar cambalhotas? Bastava uma superfície mais lisa e macia e lá estávamos de joelhos, reclinando o pescoço e segundos depois, assentados arteiramente do outro lado. Semelhante alegria em estrelas executadas ou subindo feito aranha pelos batentes das portas, era pura magia. Um leve descuido do olhar controlador e nosso mundo cambalhotava estreladamente ou parecia flutuar. Crescemos e estas peripécias se mudam do nosso cotidiano infantil, a leveza ganha peso e  o olhar,  perde os ares de otimismo.  Então vem a  “vida”, com sua maneira individual e peculiar a conduzir-nos ao crescimento. Inventa seus momentos “dejavú” e logo estamos nós às voltas com tais peripécias, desta vez nada lúdicas, pois nossa infância de brincadeiras ficou pelos meandros que a vida nos inventou. Entrelinhas,  a vida enfatiza que a felicidade está inclusa nas cambalhotas e nas reviravoltas a que somos submetidos em dias atuais. Estão fundamentadas no bem estar da nossa alma e isto é o que realmente importa ou faz a diferença.

A leveza e olhar otimista asseguram um retorno saudável a memórias impregnadas de bons sentimentos e à certeza de que tudo que nos oprime, pode converter-se em ludicidades. Regressamos convictos de que cambalhotar, estrelar e flutuar são verbos a conjugar em qualquer fase ou circunstâncias de nossas vidas.

Quando a alma anda insatisfeita e o eu preocupadíssimo, já iniciou-se o processo: o descruzar dos braços, as mãos ansiosas para reter o novo e os pés principiando uma nova rota, tira-nos da mesmice que aprisiona. É hora de passear pelo “fantástico mundo de Bobby” ou melhor, reencontrar o nosso mundo lúdico e brincar com as circunstâncias. Você ainda se lembra de como se faz isto?