terça-feira, 15 de abril de 2014

Completamente.




O tempo passando
A saudade insistindo em  ficar
A vida seguindo
o seu caminho encurta dia a dia

A doce esperança do não vivido
Forte alimenta
Enfraqueço

Na fraqueza busco a força
Sem encontrá-la definho no sonho,
Na esperança de um dia ter-te
Seria ousado de minha parte querer-te tanto?

Faltou o encaixe final, permaneça o óbvio
Sou tão sua!
Toda sua!
Completamente nua!

Tão?

Não serei assim de mais ninguém.

Desmemória.



Seu nome
não mais ecoa em meus sentidos
como sussurro inaudível
sinto apenas uma brisa
que insiste em acalentar um sonho
que se perdeu em um amanhecer tardio
porém certeiro ao anunciar um novo dia

Seu nome
agora miragens mortais sem a foice da morte
não mais ceifa meus sonhos
sequer pode mirá-los em sombria noite

Do seu nome
restou apenas uma lembrança que a minha alma lavou
o que a alma assim lava
o tempo trata de secar no esquecimento

Seu nome?
Sequer esqueci na memória.

quinta-feira, 27 de março de 2014

Ser.


Por vitalina de Assis.



Não é o pensamento que anda disperso em asas incansáveis.
É o ser, que deseja diluir, escapar pela pele, volatizar ao ar,
entretanto, tal ser é uma angústia que dilacera o peito, desconforta a alma, turba o olhar como se o próprio desejasse nada enxergar daquilo que aos olhos salta, e embora fira internamente as paredes do corpo, é no coração  que faz sentir-se como o sol que faz secar e estalar, mas que não cumpre, neste órgão pulsante,  seu primário dever. 

Desejo diluir,
escorrer liquidamente
transparente,
invisível.
Imperceptível, assim me sinto.

Sentir-se desta forma é um desconforto que possui mãos e braços, apropria e abraça. Desta servidão e deste abraço abriria mão, se, em outros braços e abraço diluir pudesse este ser hospedeiro que não sou eu, mas que finge ser. E eu, sem fingir,  sou tudo isto que desejo exorcizar em uma escrita aleatória que possui ânsias de visibilidade na mesma proporção da imperceptividade, que não escorre liquidamente,
transparente,
invisível.
Imperceptível expande no peito que se por hora não explode, pode implodir com tudo que sou.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Vá!






Poderia ter acontecido com Paulo...
Poderia ter acontecido com Maria...
Poderia ter acontecido comigo...
Poderia até ter acontecido com você...
Acontece,  neste exato momento com cada um de nós?

Lázaro estivera morto por quatro dias, a "impossibilidade cadáver em pessoa" de voltar a viver, enxergar, sorrir, ser feliz e uma impossibilidade ainda maior de, uma vez "livre", poder decidir seu caminho. Lázaro morto representa muitos de nós que vivemos uma vida inteira com pés e mãos enfaixados com tiras de pano, tal qual o elefante preso por uma fina corda, vivendo a falsa impressão de que um cabo de aço, o acorrenta. A cabeça enrolada com um pano, como se um fino tecido pudesse aprisionar os sonhos que geramos nos pensamentos. Não pode!

"E o morto saiu. Os seus pés e as suas mãos estavam enfaixados com tiras de pano, e o seu rosto estava encoberto por um tecido. Então Jesus disse: - Desenrolem as faixas e deixem que ele vá”. Em outras palavras, Jesus ordenou: Deixai-o ir libertado. Libertado do quê? Da morte que o degustou por quatro dias? Da morte que sepultou seus sonhos e desejos de liberdade? Da morte que impôs sobre ele,  limitações intransponíveis? Até onde vai de fato o poder da morte?

A morte física sepulta nossa "casa temporária", devora nossa "casa" que ao pó, retorna. Um retorno inevitável, aliás, a única certeza que possuímos de fato, cedo ou tarde demais ela vem para todos. Mas, o que dizer da morte a qual nos sujeitamos diariamente, como se fosse o caminho mais seguro a ser trilhado? Voltamos constantemente o olhar ao passado, passeamos por suas ruelas como se fosse possível refazer alguns caminhos, omitir algumas atitudes, recriar o "in criável". Regressamos ao pretérito, para uma nova conjugação? Jamais! Não nos foi dado tamanho poder ou loucura, mas insistimos no "ontem", negligenciamos o agora e não damos crédito para as novas possibilidades que não estão congeladas em um futuro incerto, mas estão vivas e aquecidas no hoje, são as tiras de pano e o tecido enrolado na cabeça a encobrir o rosto que já foram retiradas: "Deixem que ele vá, deixai-o ir libertado". Não em liberdade, pois liberdade não é sinônimo de libertado, liberdade, qualquer um pode exercer ou desejar em menor ou maior intensidade, agora, estar libertado,  é uma condição e não apenas mero desejo.

Liberdade é uma chama que, se protegida do vento que assopra fingindo aliviar e curar como uma mantra hipnótico, à salvo do pano faixas, camisa de força a prender em cavernas mentais  sepulturas , tornar-se-á uma ação imperativa: Vá libertado!


sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Meu tributo a Nilo Parreirinha.


 [ MEU TRIBUTO A NILO PARREIRINHA]
    Por Vitalina de Assis.

    (Nilo Parreirinha é um nome tão comum, e se meu título fosse: Meu tributo a James Taylor. Já teria dado a volta ao mundo. Não duvide disto.)






     

    Nilo Parreirinha,  morador de rua, de algumas ruas e da praça entre a rua Guarapari e Av. Portugal do bairro Santa Amélia, Belo Horizonte.  Um senhor educado, sempre disposto a uma boa conversa, vivia rodeado de cachorros e amigos também moradores de rua. Todas as manhãs eu o via desperto na praça quando caminhava em direção ao meu trabalho e fazia questão de cumprimentá-lo e à tarde, quando voltava, lá estava ele. Não pensem que ele não trabalhava, era catador, devia receber os seus trocados, mas não tinha onde morar, sua casa era a rua, seu teto, o céu. Em uma manhã muito fria, Nilo estava vestido apenas com uma larga bermuda e seu paletó preto, suas pernas finas e pequenas estavam expostas ao frio, ao vento gelado que soprava naquela manhã. Aproximei-me:

    - Que isto Nilo? Perguntei-lhe sorrindo. Tudo isto tudo é calor? Ou desafias o frio?
    Nilo olhou-me ternamente, nunca percebi uma amargura em seu olhar, e respondeu-me
    - Roubaram minhas coisas enquanto eu fui tomar banho, levaram tudo, até um pedaço de salame que comprei para quando me desse vontade de comer.

    Imagina! Ele não disse para "comer" quando eu estivesse com FOME. Moradores de rua não se sentem no direito de sentir fome? Ou acostumados a ela, sequer dão-lhes a devida importância? Tornou-se a fome tão natural quanto o ar que respiramos e que sequer, damos conta de que o mesmo, entra e sai dos pulmões contraindo e relaxando nosso diafragma? Indignou-me o roubo e logo percebi que ninguém é tão pobre, que não possua algo que alguém deseja ou queira roubar. Logo, ninguém é tão desvalido que não possa ajudar. Prometi arrumar-lhe uma muda de roupa, pediria para um amigo do trabalho e no mesmo dia, ao cair da tarde, lá estava eu com parte do prometido. Uma calça jeans cheia de detalhes, maior que seu corpo franzino, mas para isto, foi logo dando solução:

    - Vou amarrar ela com um cinto e vai ficar boa. Seus olhos brilharam.

    - Trarei uma blusa de frio, a única peça masculina que insistiu em ficar na minha casa, esquecida em um canto qualquer, disse eu. No outro dia, muito alinhado com aquela calça grande, me disse:

    - Você acredita que todo mundo tá de olho nessa calça por causa desse tanto de flexequer?

    - Sério? Cuidado dobrado então amigo. Rimos.

    Era assim Nilo Parreirinha. Não me pergunte mais nada sobre ele. Nunca questionei se tinha família, filhos, onde nasceu, porque estava assim, sozinho na rua. Nunca convidei-o para um café ou paguei-lhe um almoço. Quantas vezes meu coração pediu-me que o fizesse, quantas vezes tive que desviar meus pensamentos e afirmar: bobagem, ele não precisa de nada disto.

    Quantas vezes fechamos nossos olhos e coração? Quantas oportunidades temos de fazer o bem, e deixamos que outros, igualmente não o façam, pois como alguns de nós, esperam que este ou aquele faça, que uma Ong se encarregue, que o governo se mobilize. Gostamos de pensar que cabe aos outros, nossa responsabilidade social.

    Estranho! Mas onde foi que o Nilo se meteu? Já a alguns dias não o vejo, até os cachorros se foram. Mudou-se Parreirinha? Moradores de rua se mudam? Nilo Parreirinha mudou-se. Outro morador, amigo de Parreirinha estava sentado na mesma praça, olhando as pessoas, pensando na vida...

    - Oi senhor, tudo bem? Me diga uma coisa por favor, cadê o Nilo? Já faz alguns dias que não o vejo.

    Uma tímida lembrança veio-me a mente. Passara por ele um dia destes, estava imerso em si próprio, andava como se nada e a ninguém enxergasse. Impressionou-me vê-lo assim tão absorto, mas deixei que continuasse seu caminho, tive medo de interromper o que eu não compreendia. Temi pela resposta. Meu espírito segredou-me que naquele dia, Nilo não estava só.

    Que Nilo? O Parreirinha? Ele morreu já faz alguns dias, tava deitado ali, bem cedinho naquele banco e quando os homi da prefeitura que tão plantando a grama foram acordar ele, viram que ele tava morto. Morreu dormindo, o pobre. Coitado! Eu vi o dia que ocê deu aquela calça pra ele, ele ficou muito feliz, contou para todo mundo que tinha ganhado, morreu com ela.

    Perdoe-me Nilo Parreirinha por não conhecer a sua história. Perdoe-me por só saber hoje de sua morte. Perdoe-me por não ter-lhe dado o último adeus. Descanse em paz!

    Nossa vida é um sopro e a qualquer instante, podemos deixar de soprar.