quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Assim Seja!

Por Vitalina de Assis.


 
Quisera um guardião de alma
que não fosse apenas  anjo
entre sonhos e penumbras
com asas imaginárias
a me transportar para mundos irreais
intocáveis
mundo que não se habita

Que seja um anjo humano
de derme e epiderme
que tenha cheiro e sabores
que toque no corpo 
e encante o medo que circunda
que faça da imensidão
um mundo em rastos floridos

Que seja um anjo humano
a compreender o incompreensível segredo da alma
(medo que vigia e forja armadilhas
para o simples prazer da vulnerabilidade)

Que seja um anjo humano
entre erros e acertos aprendendo o certo
pontuando ao despir a desculpa
do conformismo daquilo que foi
e não pode ser mudado
(medo que vigia e forja armadilhas
para o simples prazer da vulnerabilidade)

Que seja um anjo humano a reinventar caminhos
e entre pedras cultive rosas
lindas!
na haste  espinhos a cuidar das pétalas
o rude e o belo  se harmonizam
encantam olhos que além dos espinhos
provam sabores agridoce
(medo que vigia e forja armadilhas
para o simples prazer da vulnerabilidade)

Que se faça então anjo compreensivo
de falhas composto
reagente e reação
substância a arder
na química da pele
paixão

e entranhados afetos não se estranhem
quando o rastro flores negar
quando os ardores que se exigiam de dia 
não se exijam entre os lençóis da noite
(o medo que vigia e forja armadilhas
para o simples prazer da vulnerabilidade)
envelheceu
como envelhecem todas as coisas.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Devora-me!


Por Vitalina de Assis.




Nada no mundo das minhas fatigadas retinas,  pareceu-me assim tão provocante! Uma costa desnuda, braços nus adornando tão belo corpo e uma insinuante saia a cobrir, generosas ancas. Pensei em fixar meu olhar e ficar ali apenas contemplando, desejando tocar. Imaginar o rosto que possuía tal corpo, poderia ser um exercício formidável para minha imaginação, reinante em campos, agora inférteis. Outrora, tão imaginativa levaria meus desejos e dedos para outra esfera, outro furtado sentir.

Fechei meus olhos, apelei aos céus do meu encantamento para que chovesse e fizesse brotar de vez, todo prazer recolhido em anos já idos. Esperei. Esperei. Nem chuva, nem encantamento, nenhuma semente a germinar. Fiquei estático! Meu sentir congelado enrijecia meus ossos, uma ironia tamanha, já que não eram ossos estalando, que eu desejava enrijecer. Deixei correr livremente o sangue impetuoso a irrigar rugas mortas, revivê-las em força e aquecer meu sofrido e amortecido viver. A idade pesa sobre o coração que um dia amou, extasiou-se e trancou no esquecimento emoções tão vívidas, tão intensas! Ficaria por horas buscando na memória lembranças adormecidas no passado, entretanto, a bengala que escora passos vacilantes, enrijeceu-se, fugiu do meu controle. Desejou tocar, descobrir o oculto, desvendar o rosto, compreender em olhos, boca, seios, a intensidade do prazer que por mim passava como  brisa em sonhos noturnos e com a força de um exército, moveu aquela moldura.

Abri meus olhos, arregalei meus sentidos, contemplei um par de seios jamais vistos. Como setas indicativas apontavam estar ali, a força capaz de erguer-me. Mirei aqueles olhos desafiadores que sussurravam nitidamente: "decifra-me ou devoro-te". Que forças possuía eu para decifrar algo tão surreal? Tive ímpetos de quietude, desejei ser devorado a todo custo, não tinha pretensões de decifrar o indecifrável.

Fechei os olhos enquanto a bengala caia frouxamente de minha mão. Senti um hálito quente em rugas tensionadas e um visível tremor, a percorrer  meu corpo, não deixou-me outra alternativa e sequer buscaria uma. Devorou-me!

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Frescor.

Vitalina de Assis.




Meu amor comporta silêncio em sua fala,
seu olhar desassossega silenciosamente minh' alma,
seu calor queima meu prumo e faz gritar meu mundo,
enquanto o seu,
mudo e indiferente,
sempre que deseja
por minha aridez passeia

Poder-se-ia prender-se o sol em mim
árida superfície ?
incidência solar sem trégua,
abrigo raios e calor de forma ímpar,

então...
talvez...

aquele sol,
cansado de incidir aqui e ali,
decida-se por aqui

e aridez - jardim em flores,
silêncio e desassossego - finalmente nos extremos,
no centro da vencida solidão - atroada e sofreguidão
Frescor!

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Por hoje.

Por Vitalina de Assis.



 Estou de mãos dadas com a desesperança, aliás, desejo tributar-lhe uma homenagem. É sempre tão fácil falarmos da esperança, é nobre, inspirador e algumas vezes, vital! O oposto? Fazemos questão de ignorar ou taxar de fraqueza, falta de fé, um despautério, entretanto, o que dizer quando a desesperança se torna o único sentimento capaz de manter nossa lucidez?

Minhas mãos, agora braços a abraçar a desesperança sente a solidão aplacada - melhor abraçar um nada presente do que viver “dias"em fantasiosa espera que não vinga, que não gera e não é capaz, (nem a esperança tampouco) de paralisar o tempo, evitar que envelheça e assente na senescência, nosso querer.

Ah o tempo! Este escoa sem tréguas, não tira férias aquele que envelhece a pele, resseca as folhas, descolore as estações - sendo assim, por que desprezá-la tanto? Então... que me perdoem os “esperançados”!

Desesperança, conjugo-te!

Eu desesperançar-me-ei por hoje
apenas hoje
deste sonho que me aprisiona
em um eterno aconteçamos nós

Eu desesperançar-me-ei por hoje
apenas hoje
da compreensão de que, 
quem espera alcança um dia
pois esperar
se de longe sugere certeza
de perto é imaturidade disfarçada
um poder sem força de lei

nem tudo que desejo
lícito é possuir
por quê esperar o que de frente
caminha de costas?

Quando penso:
alcancei!
no NADA tocou minhas mãos
Quando em minhas retinas brilha
como miragem no deserto
aquele que alegra meu coração
o escaldante sol
queima minha ilusão.

Esperança? Te quero não!
Cansei!

Desesperançar-me-ei por hoje 
apenas hoje
amanhã quem sabe
desesperança parirá cria bastarda
quem sabe amanhã
miragem não é
quem sabe amanhã
o oposto da esperança
se revele “realidade”

Realidade de uma mulher, agora feliz e inteira.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Instantes.

 Vitalina de Assis.

Tive que segurar-me para não demonstrar certa angústia ou tristeza,
não soube definir ao certo.
Fato é que ando meio assim, meio cá, indefinida.
Sente-se assim de vez em quando?

Mulher deve possuir um véu em alguma parte de sua essência a encobrir certos sentimentos,
e quando um vento meio descuidado e atrevido sopra,
nos desnudam por instantes.

Algumas sentem voar
e outras
recolhidas em si,
buscam um eixo pra se aprumar,
recolhem o véu, se escondem.

Já vivi meus instantes,
voei, caí,
me aprumei,
aqui e ali me escondi.
Hoje mais livre e contida,
ora voo,
ora asas insistentes, fecho

por hora
dicotomicamente
me confundo.