quinta-feira, 17 de maio de 2012

Instantes.

 Vitalina de Assis.

Tive que segurar-me para não demonstrar certa angústia ou tristeza,
não soube definir ao certo.
Fato é que ando meio assim, meio cá, indefinida.
Sente-se assim de vez em quando?

Mulher deve possuir um véu em alguma parte de sua essência a encobrir certos sentimentos,
e quando um vento meio descuidado e atrevido sopra,
nos desnudam por instantes.

Algumas sentem voar
e outras
recolhidas em si,
buscam um eixo pra se aprumar,
recolhem o véu, se escondem.

Já vivi meus instantes,
voei, caí,
me aprumei,
aqui e ali me escondi.
Hoje mais livre e contida,
ora voo,
ora asas insistentes, fecho

por hora
dicotomicamente
me confundo.

terça-feira, 8 de maio de 2012

Inexisto para você?


Por Vitalina de Assis.




"Aprendo. Te aprendo, homem. O que a memória ama fica eterno.
Te amo com a memória, imperecível.” (Adélia Prado)


Parece-me que Adélia Prado encontrou o homem da sua vida, e o que é mais encantador, casou-se com ele. (Algumas mulheres o encontram, entretanto, não os reconhecem e vivem uma eterna insatisfação.) Acredito que ela não o tenha encontrado como idealizamos em nosso imaginário, um ser perfeito, lindo, irretocável! Seres assim existem? Dê uma espiadinha ao seu redor, levante o olhar, mire o mais longe que puder, encontrou-o? Mude de bairro, cidade, país, deparou-se com ele (a)? Este ser, nas entrelinhas de Adélia posso ler, não é e nem poderia ser a perfeição em pessoa, daí a necessidade imensurável de aprender e mais, tornar este ato, imperativo. “Aprendo. Te aprendo, homem.”

Encontrá-lo talvez não seja tão trabalhoso como procurar agulhas no palheiro, (Sinceramente? Estou quase preferindo fazer isto.) entretanto, segundo a brilhante escritora, o caminho é ingressar no mundo da aprendizagem e aprender, aprender, continuar aprendendo por uma vida inteira e reter na memória “imperecível” o que se aprendeu, pois a memória perecívelfocaliza coisas específicas, requer grande quantidade de energia mental e deteriora-se com a idade”. Aprender nos custa e guardar na memória então, nem se fala. Sem pretensões de analisar o Para o Zé” de Adélia Prado que, desconsiderando-se esquemas métricos e rítmicos poderia intitular-se: “Ode do Amor”, mas desconfio ter sido intenção da autora, primar pela simplicidade. Não são simples os grandes amores? Me responda você, pois quem sou eu para atrever-me a tanto. Deter-me-ei na epígrafe, não ousaria falar de grandes amores, não conheço um grande amor, não vivo um grande amor, mas desejo ardentemente encontrar o homem da minha vida, posso ao menos desejar? Encontrar ou aprender? "Aprendo. Te aprendo, homem. O que a memória ama fica eterno. Te amo com a memória, imperecível.”

Aprendemos algo novo todos os dias e por ser cansativo o ato de aprender, alguns sonham com uma aprendizagem “download”, seria incrível inserir um chip, baixar um programa, de preferência deitado confortavelmente em uma bela poltrona e zás... conhecedor do bem e do mal. Para Adão e Eva, tal conhecimento custou-lhe o paraíso e a vida eterna. Nada que vem fácil, sem custos, é sustentável a longo prazo. Adélia possui a consciência de que não se ama com o coração, estaria aqui seu segredo? Afirmamos amar com este órgão que bate em nosso peito, e Adélia, que a memória ama e mais, que o seu amar “memória” fica eternizado. Memória não é um órgão que se possa tocar, “memória é a capacidade de adquirir, armazenar e recuperar informações disponíveis”. Adquirir, armazenar, recuperar e em outras palavras: obter, consolidar, evocar, seriam estes, verbos conjugados pelo amor?

O amor não é simplesmente fruto do acaso, coincidência, sorte, golpe do destino, recompensa, embora muitas vezes nos pareça assim. O amor se conquista, é um bem que se adquire e que necessita ser consolidado dia a dia, pois vulnerável em alguns aspectos, pode enfraquecer-se ou optar pela inexistência, (Inexisto para você!) se tratado de forma leviana. Seria ele, caprichoso a este ponto? Por vezes o temos por perdido, esquecido em lugares de difícil acesso, exilado em outra galáxia, tão além do nosso merecer, entretanto, tão acessível, a um passo do aprender que precisa ser consolidado dia a dia com o intuito de fortalecê-lo, torná-lo sólido, “sabido”. Te amo com a “memória imperecível”, que aprendeu que amar é: o trabalho incessante de trazer à lembrança, reproduzir na imaginação, evocar o passado onde se amou e torná-lo presente, seja qual for a estação reinante, seja qual for a força dos ventos.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

E eu não quero.

  Por Vitalina de Assis.



Não me solicites pressa quando tudo em mim é espera
quando tudo em mim é sangue
correndo a irrigar segredos
quando tudo em mim
pulsa desejos
que não podes sequer conter. (E eu não quero sossegar)

Não me solicites calma
não podes deter águas que se movem
livres
repudiam limites
e gozam na cara
o fogo que tem prazer em engolir. ( E eu não quero sossegar)

Tão logo venhas
aquieta-te
após romperes tu também
com teus limites. (E eu não quero sossegar e me obrigas)
 

sexta-feira, 30 de março de 2012

Zis salabrim! A mágica sou eu.







Ouvi uma canção “mara” a caminho do trabalho, tão antiga, quanto alguns dos meus sonhos, tão coerente como a realidade do tempo que se escoa e que não se ajunta de novo, seja você rico, pobre, preto, branco, homem, mulher, ser vivente.

Se temos noção de que a vida segue religiosamente como um ritual jamais profanado, que é metódica na mesma proporção em que é flexível, que é doce e suave e pode na mesma esfera, ser dura e implacável, espera ela, alguns segundos? Uma fração de segundos? Consegues imaginar o que é isto? Espera o quê? O que achamos que a “vida” espera de nós? Que sejamos perfeitos? Um ser humano invejável? Uma pessoa amorosa? Um profissional bem sucedido? Um ser solidário, feliz, completo? Espera gestos de extrema bondade e um amor ao próximo expresso em atitudes bem mais contundentes, do que simples blá, blá, blá? Poderia prosseguir por páginas e ainda assim pecaria, não por excesso, mas por omissão de algumas coisas que talvez a vida espere apenas de mim. Seria muita pretensão de minha parte inferir isto? Ou ainda acreditar que pelo simples fato de sermos únicos e diferenciados em uma série, (acredite, o somos) existem coisas que só compete a mim, o feito de realizá-las?

Já acordou com a estranha sensação de que está em falta? Já levantou da cama com a impressão de que parte de você ainda dorme e se esconde entre edredons e lençóis? Parte de você ficou preso naquele sonho, e não se engane, não são os bons sonhos os melhores carcereiros. Sonhos pesadelos também nos prendem, embora acordemos assustados antes que seu intento se cumpra e aliviados, agradecemos aos céus: “Ufa, graças a Deus foi só um sonho!” Se no sonho morreu alguém que amamos e se ao nosso lado está, ao alcance de nosso carinho, nos levantamos e o beijamos suavemente para que não acorde. Se está distante pedimos a Deus que o proteja e assim que possível, ligamos, fazemos uma visita, mandamos um e-mail. Mas, se contrariando toda regra sequer nos damos ao trabalho, pergunto novamente, o que espera a “vida” que eu faça? Porque ela continua seguindo seu rumo, não pausa para um descanso, nem fica no dobrar da esquina esperando por nós. ELA SEGUE, caminha e a cada passo dado, não soma comigo, apenas subtrai.

A vida não se deixa aprisionar em sonhos e embora “sonhar” revele-se um caminhar prazeroso ou assustado, temos que ter consciência de que acordar, é mais produtivo. Sonhas um dia realizar este ou aquele feito? Sonhas em fazer diferença neste vasto mundo? Como seria isto possível se no meu universo particular privilegio o individualismo e tenho dificuldades em influenciar para o bem comum? Durmo com sonhos filantrópicos, mas sequer olho para o mendigo que cruza meu caminho, sou incapaz de ajudar meu próximo e queixo-me da vida o tempo todo?

Alguns consideram-na implacável, vingativa, com um propósito obscuro, uma ladra de sonhos, pessoas, oportunidades. Constantemente ouvimos: “A vida me tirou tudo que tenho, vida isto, vida aquilo, vida bandida”. O que espera a “vida” que eu faça? Se cruzamos os braços e ao sabor das ondas vamos escorregando existência afora, não ficamos aquém de nós mesmos? Reféns de uma letargia que nos consome de forma quase imperceptível, em um belo dia o que vemos no espelho assusta, pois nem de longe assemelha-se com a imagem que carregamos na memória de quem um dia fomos. E agora? Dá para maquiar e disfarçar este alguém? Torná-lo menos rude, menos amargo, menos insatisfeito? Quem dera tivéssemos uma varinha de condão, e “Zis salabrim”, mudei enfim”. Lamentavelmente continuamos os mesmos, velhos hábitos, velhas esperanças, velhas atitudes, até percebermos que uma mudança é um projeto e como tal, programável em qualquer fase de nossa existência. O “Zis salabrim” a que me refiro, é a minha vontade, meu querer, minha necessidade.

O que espera a vida que eu faça? Felizes os que a consideram um presente de alto valor ( aqui me incluo) e por isto, objeto inestimável. Acordam ou melhor, despertam para mais um “mundo” de possibilidades, para um eu posso enxergar o que me cerca por um novo prisma, posso dar um novo tom para cores e notas desvanecidas, posso fazer frente às situações que ontem me intimidaram. Um despertar convicto, faz toda diferença!

Como é? Que música ouvi? Deixei-a de propósito para o final e cito alguns versos:

Hoje o tempo voa amor
Escorre pelas mãos
Mesmo sem se sentir
Não há tempo
Que volte amor
Vamos viver tudo
Que há pra viver
Vamos nos permitir.”

Permita-se e na medida do possível, seja feliz!

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Damos conta! Passe a régua.





No futuro não muito distante, acredito eu, os cientistas irão descobrir (se já não o fizeram) no DNA feminino, moléculas da "carência" , porque as da culpa, não tenho dúvida carregamos nos nossos genes. A culpa é edêmica, foi-nos atribuída lá no Jardim do Éden, quando o "perfeito" Adão, ao invés de proteger sua adjutora, foi logo apontando o dedo e dizendo para Deus: "Foi a mulher que tu me destes". Dividiu a culpa entre Eva e Deus, naturalmente. Hoje nos culpamos por tudo, somos apontadas como culpadas e no final das contas, imitamos Adão: "Ah Senhor, foi o homem que o Senhor nos deu, foi o homem que o Senhor não nos deu, foram os filhos que o Senhor permitiu que gerássemos, ou a falta deles". CULPA E CARÊNCIA", um casamento ideal e a morada perfeita: SEXO FRÁGIL, MULHER. Não é assim?

Se somos casadas, estamos carentes e culpadas; se estamos sozinhas, carentes e culpadas; se nos divertimos, carentes e culpadas; se dormimos o sono da depressão ou dos justos,  carentes e culpadas; se amamos em demasia, carentes e culpadas; se amamos moderadamente, carentes e culpadas; se não amamos, carentes e culpadas; se vivemos e curtimos nossa vida, carentes e culpadas! Isto parece-me uma sentença pronunciada ao som do martelo, no grande tribunal da vida: CARENTES E CULPADAS! E aquela estória de "ser inocente até que se prove o contrário?". Não funciona no nosso universo único e particular. Devem existir algumas heroínas divas acima deste patamar, o resultado final de anos de terapia, pensamentos positivos, e alguns segredos inconfessáveis. Fato é que estou por vias de regras: CARENTE E CULPADA, e isto não é apenas um sentimento a extirpar, talvez uma "hemodiálise" metaforicamente falando, com sua remoção hipotética da carência líquida e da culpa, substância tóxica que circula livremente em nosso sangue, dê jeito nisto. Filtrar, depurar sentimentos indesejáveis na alma, no coração, na pele, deveria ser algo simples de se efetuar, entretanto já podemos estar vitimados por uma insuficiência de amor próprio e neste caso, nosso sentir não consegue eliminar tais substâncias devido à falência dos mecanismos de autopreservação. Sabemos porém, que tal tratamento não existe, que a carência não se retira em processamento mecânico, e a substância tóxica da culpa, não se apaga como se apaga um cigarro, como se apaga uma ideia. Anos de terapia? Talvez.

Vivenciando eu, conflitos familiares, uma amiga consolou-me com o seguinte conselho: "você precisa SE colocar em PRIMEIRO lugar, e no segundo: você é claro, no terceiro: você sem discussão, no quarto, você de novo, no quinto e olhe lá, você comece a pensar em outras pessoas. Cúmulo do egoísmo? Pode uma mãe priorizar-se tanto assim? Pode uma pessoa "egoístizar-se" sobremodo? Não sofreria esta pessoa uma retaliação da culpa? Bom, quanto a mim posso ser categórica! A "culpa" não pega leve comigo, sua retaliação é cruel!

Sem falar é claro, na "esperança" que se cansa e convenhamos, não é a varinha de condão a tudo realizar. O que sobra então? Um cansaço exorbitante, que horas, dias, meses, anos de sonoterapia, talvez não dessem conta de administrá-lo. Da esperança quero muito abrir mão, mas não se vive sem esperar que as coisas melhorem, não é mesmo? Então finjo! E o meu fingimento é tão convincente, que tem horas que penso realmente ter virado o jogo, então finjo mais ainda para não acordar, embora o sol já esteja aquecendo a janela. Amanheceu o dia, acorda sonhadora!

Outras vezes voamos, alçamos altas nuvens, pousamos, sem contudo aterrisarmos de fato. Fantasiamos amor, uma vida de completude, situações onde nossa vontades e desejos supremos se realizam. Os dias passam, os anos nos envelhecem e nossos sonhos hão de envelhecer um dia.

Quanto a carência, será que um dia ela seca? E a culpa? Bom, esta parece indivisível, imortal e segundo a sabedoria de almanaque - "se não podes vencer seus inimigos, alie-se a eles". O que isto significa? Não sei ainda, mas se olhar na direção contrária, se mudar de rua for a saída, que os meus olhos não me traiam e que tais ruas não se transformem em becos sem saída. Meu pensamento? "que estas ruas brilhem com pedrinhas de brilhantes, para o meu, para o meu amor passar". E antes que pense em um amor de calças compridas, cabelos prata estonteantemente perfumados e um olhar sedutor - te quero mulher só minha, que desfile primeiramente o meu "AMOR PRÓPRIO"! “Eu” em primeiro, “eu” em segundo, “eu” em terceiro, “eu” em quarto, em quinto... E a culpa? Do outro lado da rua, na paralela da minha vida e em direção oposta, obrigatoriamente oposta.

Conviver com esta dupla não é nada fácil! Mas fomos forjadas para vencer a dor e seguir adiante. Hoje possuímos a vantagem de sermos seres livres, (?) diferentes de outras filhas de Eva do passado, submissas, escravas do lar e da condição "fique quieta", sem prazer e sem direito a ele. Hoje trabalhamos, sentimos prazer, somos o "macho" da casa e muitas vezes da própria relação, e pagamos um preço "desgraçado" por isto. “A quem muito foi dado, muito será cobrado”! Outra sentença, outro bater do martelo. Que venham as notas promissórias! Já provamos por alguns séculos, que damos conta do recado. Passa a régua!