Por Vitalina de Assis.
“A Palavra está perto de ti, na tua boca e no teu coração”.
Nossa vida é uma sequência de momentos, alguns são repletos de felicidade, outros cheios de angústias e alguns cobertos de estranha calmaria. Todos eles acobertados por palavras que, se bem os descrevem, podem também conferir-lhes um peso excedente e transformá-los em uma âncora que poderá enterrar-nos parcialmente na “areia” imobilizando nosso mover, ou ainda retardá-lo.
Não é segredo e nem seria ousadia de minha parte, afirmar que temos por hábito lançar sobre os outros, a responsabilidade de “emes” atropelos. Quando não, ao verbalizarmos o que percebemos quase sempre de maneira distorcida em virtude das emoções afloradas, esquecemo-nos de que o nosso “falar”, é determinante. Já colhestes a contragosto o que livremente semeou seus lábios em minutos, horas e dias de ira, desânimo e completa descrença? Ou tens sido feliz ao fazer uso desta ferramenta em seu próprio benefício, usando-a com moderação, zelo e sobretudo acreditando em seu poder criador? Palavras não devem ser vistas apenas como um meio de comunicação com os outros, ou usada como uma ferramenta para ferir ou denegrir. Deveria ser compreendida como uma aliada, uma facilitadora e porque não, a mentora capaz de guiar-nos a um nível mais criativo, ou invariavelmente, a escolta armada a conduzir-nos a níveis improdutivos e confinadores.
Quando digo nível mais criativo, confiro às palavras, o que elas possuem de mais extraordinário em sua essência, são criadoras! Entretanto, não se deixe enganar, são criadoras para o bem ou para o mal, decida você. E quanto a ser uma escolta armada a conduzir-nos a níveis improdutivos e confinadores, fica aqui um sinal de alerta: Que palavras tenho liberado? Com que frequência e com que estado de espírito as tenho proferido? Certamente não ficarão ao vento sem cumprir o seu desígnio.
Há dias tenho dialogado com a epígrafe acima e após reflexões, percebi que aquilo que verbalizamos não é algo estritamente gerado no nosso interior, mas repetimos o que perto está, aquilo que ouvimos, ou vivenciamos. A partir daí, da pronúncia e da importância que damos a esta fala, ela se incorpora em nosso ser, no nosso “coração” fonte das nossas emoções e criatividade. Posso dizer que a “palavra” é um poder criador e reproduzirá o que for liberado através dela, (não estou aqui reinventando a roda) sem que possua contudo, um filtro a nosso favor. Filtrar compete a cada um de nós. Temos em nossas mãos o poder de escolha: posso repetir como um papagaio sem compreender as reais consequências, ou deliberadamente escolher o que dizer e quando dizer.
Fica aqui uma dica. Como não podemos fechar nossos ouvidos como fechamos nossa boca, melhor escolhermos bem as palavras as quais daremos abrigo. E, se ao contrário, por um triste capricho dos deuses, já estiverem as “más” repousando em nossa língua, coloquemos então guardas à portas de nossos lábios e nem sobre tortura as lancemos ao vento. Com o tempo elas se calam. Nada de deixarmos que se apropriem do coração, envenenando-o como se ele não possuísse dono. Tampouco que lancem âncoras em nosso mar de possiblidades. Difícil? Impossível? Nem tanto ao céu, nem tanto à terra, e creia, não há nada que não seja alcançado com disciplina e boa vontade. Então, mãos à obra e boas falas.