Por Vitalina de Assis.
Somos tão conscientes do tempo e de sua ordem cronológica, que jamais cogitamos na possibilidade de invertermos os ponteiros do relógio e contarmos o tempo de trás para frente. Até que não seria uma má ideia. Imagine você: Quando crianças sonhamos em ser adolescentes. Na adolescência, no auge dos hormônios sonhamos com o fim das espinhas. Com a chegada da tão desejada maioridade, a transição para o poder de assumir-se (ainda que em tese) como um ser autônomo e responsável, tomamos posse do faço o que quero, ninguém mais manda em mim. Então percebemos que nem tudo é o parece ser, e da maioridade algumas vezes decepcionante, visualizamos a maturidade, o suposto fim dos problemas... agora uma mente mais sábia e capaz de compreender quase tudo. Uma situação financeira e profissional definida, um tempo de paz para gozar de anos de trabalho, netos , bisnetos e um merecido descanso em um céu quem sabe azul, ou em um nada absoluto, ou ainda um novo recomeçar, aqui, ali, e acolá.
A frase em destaque encontra-se no livro de Eclesiastes 3:5 e é parte de uma reflexão sobre o tempo determinado para todas as coisas, é certo que existe um tempo para tudo debaixo do sol e muitas vezes não nos damos conta do momento exato para ir ou vir, fazer ou não fazer e ficamos à mercê do acaso. Estar à mercê do acaso é quase como não ser responsável, é outorgar a outros o direito que compete a mim sobre o gerenciamento da minha vida. Feito isto, nos assentamos sobre nossas angústias, problemas e lançamos sobre o primeiro que nos mira com um olhar despreocupado, a culpa pelo desencanto que desaba sobre o nosso pequeno universo. Fácil agir desta forma, cômodo não assumir a consequência dos nossos atos ou omissões.
“Tempo de espalhar pedras, e tempo de ajuntar pedras”... não parece haver aqui uma inversão da ordem? Já se viu espalhando pedras simplesmente pelo prazer de ajuntá-las depois? Não parece isto insano? Um despropósito? Um não ter nada mais sensato a fazer? Penso que a sabedoria de Salomão nos convida a reflexionar, olhar com outros olhos e quem sabe assumir novas posturas. Quantas construções precisam vir abaixo por que houve um erro qualquer e, derrubar, espalhar pedras é o caminho mais acertado? Vamos para o terreno das relações. Construímos relacionamentos, vamos juntando as pedras, colocando cimento, argamassa, dando um acabamento de luxo e de repente aquilo que construímos não oferece segurança, não nos proporciona abrigo e nem de longe se parece com o que havíamos projetado inicialmente. O que fazer então com aquele “elefante branco”?
Podemos estar cheio de apego por este “animal” tão diferenciado, mas acredite, ele não é dócil e cedo ou tarde, vai agitar a sua trompa e derrubar tudo sobre você. O que fazer? Esperar o circo pegar fogo? Esperar ser soterrado? Salomão nos dá a dica acertada. “Tempo de espalhar pedras”. Aqui começa o trabalho mais árduo, espalhar, antes porém, soltar. Como é difícil soltar as coisas, abrir mão da aparente zona de conforto. É como aquele chimpanzé que agarrou uma banana dentro de um vidro e ficou preso por não saber escolher entre largar a banana ou continuar agarrado a algo que não poderia alimentá-lo.
Não vi a cena, mas acredito que muitos morrem apenas imaginando a possibilidade de alimentar-se. Definham no sonho, no imaginário e, quando se dão conta, se é que isto ocorre, o tempo se foi, não há mais nada a ser feito. Tempo de espalhar para ajuntar de novo. Espalhar, (separar a palha de; (os cereais) dispersar, mandar ao vento “pedras” que não são os cereais que alimentam, são palhas. Construímos com palhas disfarçadas em pedras uma bela construção, “eu sopro e vai tudo voar”, grita o lobo mau todas as manhãs e noites de nossas vidas, uma ameaça constante.
Até quando é possível suportar e viver sob ameaças? O tempo nos dita as regras, a sabedoria nos faz perceptíveis: espalhar, ajuntar novamente. Ajuntar de forma mais coerente com que acreditamos, e com o que nos ensinou a maturidade, nosso empirismo vivenciado. Abrir mão da banana que nos mantém presos à ilusão de que o gargalo do vidro irá se ampliar a qualquer momento, ou quem sabe diminua nossa mão, e a banana também. Nem uma coisa, nem outra, não espere definhar afinal. Espalhe quantas vezes forem necessárias, ajunte, faça de novo, refaça de uma maneira diferente, mais saudável, mais flexível a ajustes.
E por fim: “tempo de abraçar , e tempo de afastar-se de abraçar”.
Abrace você mesmo, sua vida, seus sonhos perdidos na falsa “arquitetura” desta obra de “palha feito pedras”. Deixe soprar o vento da oportunidade, e reconstrua com sabedoria e quando tiver feito isto, abra seus braços, se solte, olhe ao seu redor, viva feliz afinal.
E para aqueles que, ao invés da mão presa no gargalo estão presos em um abraço sem sentido, (pode ser este o "tempo de afastar-se do abraçar") por que não tentar outros abraços?





